Javier Milei e Flávio Bolsonaro; empresa de aviação ligada ao voo do senador já transportou o presidente argentino. | Foto: Reprodução/X

Política

INVESTIGAÇÃO Empresa usada na fuga de Flávio é ligada a Milei e aparece em investigação na Argentina

Baires Fly operou a aeronave usada na viagem atribuída ao senador aos EUA, já transportou Javier Milei em 2023 e aparece em apuração sobre suspeitas de irregularidades em contratos públicos argentinos

por: NOVO Notícias, com informações do ICL Notícias

Publicado 28 de outubro de 2026 às 13:20

A empresa que operou o avião usado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para fugir do Brasil na madrugada desta quarta-feira (28) pertence a um empresário que já pilotou uma aeronave fretada para o presidente argentino Javier Milei e membros de sua equipe política. Luis Grande, dono da Baires Fly, comandou o voo que levou Milei aos Estados Unidos em novembro de 2023, pouco depois de sua vitória nas eleições presidenciais.

A companhia também aparece em documentos de uma investigação judicial na Argentina sobre suspeitas de irregularidades em contratos públicos. A apuração envolve o empresário Sergio Daniel Mastropietro, que atua no mercado de voos privados e mantém relações comerciais com a Baires Fly.

O cruzamento de informações sobre a aeronave usada por Flávio, registros da empresa e reportagens da imprensa argentina permitiu identificar esses vínculos. Mastropietro também manteve negócios com Federico Machado, empresário investigado nos Estados Unidos por crimes financeiros e suspeitas de narcotráfico.

Como foi a saída de Flávio Bolsonaro

A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que Flávio atravessou a fronteira às 22h50 de terça-feira (27), pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones.

Ele estava acompanhado da esposa Fernanda e das duas filhas e embarcaram às 23h30 em um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela Baires Fly. O avião decolou pouco depois da meia-noite, com destino a Guayaquil, no Equador, onde fez uma escala antes de seguir para os Estados Unidos.

A aeronave havia chegado a Puerto Iguazú na noite de segunda (26), vinda de Buenos Aires. A partida estava prevista inicialmente para a madrugada de terça (27), mas não ocorreu. O avião permaneceu no aeroporto por cerca de 24 horas e decolou após a chegada de Flávio e seus familiares.

A viagem ocorreu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que, segundo o material original, determinou a entrega dos passaportes do senador e proibiu sua saída do Brasil. O teor, a data e o alcance da decisão precisam ser conferidos na íntegra do documento judicial.

Dono da empresa pilotou avião de Milei

Luis Grande atua no setor de aviação executiva argentino e integra a Baires Fly desde 1991. A empresa opera a partir do Aeroparque Jorge Newbery, em Buenos Aires, e possui uma frota de dez aeronaves, usadas em viagens particulares e deslocamentos empresariais, entre outros serviços.

Em 27 de novembro de 2023, Grande pilotou um Gulfstream V, de matrícula LV-KAX, fretado para levar Milei aos Estados Unidos. Eleito pouco mais de uma semana antes, o presidente argentino organizava a equipe que assumiria o governo em dezembro.

Entre os passageiros estavam Karina Milei, irmã do presidente e uma de suas principais auxiliares políticas; Luis Caputo, que assumiria o Ministério da Economia; Santiago Caputo, estrategista político do grupo; e Nicolás Posse, futuro chefe de Gabinete. Também participaram o empresário Gerardo Werthein, posteriormente nomeado embaixador argentino em Washington, e Marc Stanley, então embaixador dos Estados Unidos em Buenos Aires.

O empresário Sergio Daniel Mastropietro atua na comercialização de voos privados e é investigado na Argentina. | Foto: Reprodução

Publicações argentinas estimaram o custo do fretamento entre US$ 120 mil e US$ 250 mil. Werthein participou da organização financeira da viagem e ofereceu-se para pagar o deslocamento.

Segundo reportagem do elDiarioAR, a oferta gerou preocupação entre integrantes da comitiva porque Werthein pretendia assumir a embaixada argentina em Washington. A solução teria sido dividir os custos entre os passageiros.

O voo documenta uma relação comercial anterior entre Grande e o grupo político de Milei. O empresário também prestou serviços a outros presidentes argentinos, como Mauricio Macri, Cristina Kirchner e Alberto Fernández. Não há, no material apresentado, comprovação de que Grande mantenha uma aliança partidária com Milei.

Baires Fly aparece em investigação sobre contratos públicos

A Baires Fly também é citada em uma investigação sobre suspeitas de corrupção na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), órgão argentino responsável por políticas públicas destinadas a pessoas com deficiência.

O caso envolve suspeitas de irregularidades em contratos para o fornecimento de medicamentos e equipamentos médicos durante a gestão de Diego Spagnuolo, ex-dirigente da agência e antigo integrante do círculo de confiança de Milei.

Um dos investigados é Sergio Daniel Mastropietro, que atua no mercado de voos privados e mantém relações comerciais com a Baires Fly. Ele também possui negócios no setor de aviação, incluindo a Baires Jets.

Segundo documentos mencionados no material original, Mastropietro intermediou operações financeiras envolvendo a Baires Fly e empresas fornecedoras da ANDIS. A suspeita dos investigadores é que pagamentos registrados como serviços aéreos tenham sido usados para justificar a movimentação de recursos supostamente ligados a contratos públicos irregulares.

Em setembro de 2025, Mastropietro enviou ao empresário Miguel Ángel Calvete, apontado como um dos participantes do esquema investigado, os dados bancários da Baires Fly.

No dia seguinte, empresas fornecedoras de medicamentos transferiram dinheiro para contas da companhia. A Prolite Orthopedics enviou 34,56 milhões de pesos argentinos, enquanto a Probock transferiu 60,5 milhões de pesos. Juntas, as operações somaram cerca de 95 milhões de pesos.

Após as transferências, Mastropietro encaminhou faturas da Baires Fly com a justificativa de compra antecipada de quilômetros de voo. A Droguería Profarma também aparece nas operações examinadas.

Um dos pontos analisados pelos investigadores é que as faturas foram emitidas depois dos pagamentos, após solicitações de Calvete. Para o Ministério Público argentino, os documentos podem ter sido usados para justificar movimentações financeiras sem correspondência com serviços efetivamente prestados. Essa hipótese ainda depende de comprovação judicial.

Em outubro de 2026, Mastropietro foi formalmente processado pela Justiça argentina sob suspeita de participação em associação ilícita e lavagem de dinheiro. A decisão representa uma etapa do processo, mas não equivale a uma condenação.

Embora contas e faturas da Baires Fly apareçam nos documentos, o material apresentado não comprova responsabilidade criminal de Luis Grande nas operações investigadas.

Empresário também fez negócios com investigado por narcotráfico

Mastropietro também manteve relações comerciais com Federico “Fred” Machado, empresário investigado nos Estados Unidos por suspeitas de narcotráfico, lavagem de dinheiro e fraudes envolvendo a comercialização de aeronaves.

Segundo as acusações das autoridades americanas, Machado teria participado de uma estrutura empresarial usada em operações financeiras fraudulentas e na negociação de aviões posteriormente empregados por organizações criminosas.

Documentos analisados pela imprensa argentina identificaram movimentações superiores a US$ 800 mil entre Mastropietro e uma estrutura financeira associada a Machado.

Mastropietro também aparece em relatos sobre a aproximação entre Machado e José Luis Espert, economista e político que se tornou aliado de Milei. O tipo de participação do empresário nessa aproximação precisa ser especificado conforme a documentação disponível.

Em janeiro de 2020, Machado transferiu US$ 200 mil a Espert. A operação ganhou repercussão política na Argentina após a divulgação de documentos bancários. Espert reconheceu ter recebido os recursos, mas negou conhecer as atividades criminosas atribuídas ao empresário.

Em agosto de 2026, Machado admitiu responsabilidade por crimes financeiros nos Estados Unidos, segundo o material original, em um acordo judicial que retirou a acusação de narcotráfico. Os termos do acordo precisam ser conferidos no registro judicial correspondente.

A relação comercial entre Machado e Mastropietro, por si só, não comprova envolvimento de Grande ou da Baires Fly nos crimes atribuídos a Machado. Também não há, no material apresentado, evidências de que o avião usado por Flávio Bolsonaro tenha pertencido a Machado ou sido empregado em operações criminosas.

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