Marcelo Sitcovsky é professor do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba.
Análise de professor universitário compara a exposição de comerciantes e episódios de violência pós-eleição a métodos de segregação do século XX e cobra atuação do Ministério Público
Publicado 28 de outubro de 2026 às 13:16
Sou filho e neto de judeus. Meus antepassados foram obrigados a deixar suas terras de origem, no Leste Europeu, fugindo das perseguições antissemitas e buscando reconstruir suas vidas no Brasil e na Argentina. Essa história familiar me vincula à memória de gerações que sofreram a intolerância, a discriminação e a violência em razão de sua origem. É também a partir dessa memória, associada à minha trajetória como professor universitário e estudioso das relações sociais, que considero necessário refletir sobre acontecimentos recentes no Brasil, particularmente sobre práticas de perseguição e exclusão política que encontram precedentes preocupantes na história do século XX.
Em 1º de abril de 1933, poucos meses após Adolf Hitler chegar ao poder, o Partido Nazista organizou um boicote nacional aos estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus. Integrantes das tropas de assalto nazistas posicionaram-se diante das lojas para intimidar consumidores, enquanto cartazes orientavam a população a não comprar produtos nem contratar serviços de comerciantes judeus. A identificação pública dos estabelecimentos e o estímulo à exclusão econômica constituíam parte de uma política antissemita de perseguição.
A perseguição aos judeus não começou com os campos de extermínio. Foi precedida pela propaganda de ódio, pela construção de um inimigo interno, pela retirada de direitos e pela crescente segregação econômica e social. Um episódio emblemático dessa escalada ocorreu nos dias 9 e 10 de novembro de 1938, na chamada Noite dos Cristais (Kristallnacht). Em ataques coordenados pelo regime nazista, mais de 1.400 sinagogas foram incendiadas ou destruídas, milhares de lojas e residências judaicas foram vandalizadas, pessoas foram assassinadas e dezenas de milhares de judeus foram presos, dos quais aproximadamente 26 mil foram enviados a campos de concentração. A Noite dos Cristais representou um marco na intensificação da violência organizada contra a população judaica, evidenciando as consequências da transformação do preconceito e da discriminação em política de Estado.
No Brasil, os acontecimentos registrados durante e após as eleições presidenciais de outubro de 2026 exigem atenção. Grupos bolsonaristas divulgaram e permanecem divulgando listas de estabelecimentos comerciais identificados como pertencentes a eleitores de Lula ou a simpatizantes da esquerda, incentivando boicotes econômicos. Também circularam campanhas estimulando a demissão de trabalhadores em razão de suas preferências políticas. Essas iniciativas foram registradas em diferentes regiões do país, inclusive na Paraíba. A identificação e a exposição pública de comerciantes e trabalhadores por suas convicções políticas representam formas de intimidação que ultrapassam os limites do debate democrático.
Os episódios de hostilidade não ficaram restritos às relações comerciais. Durante o período eleitoral, em Belo Horizonte, um motorista avançou com um veículo contra participantes de uma manifestação de apoio a Lula, ferindo um idoso. Em Santos (SP), o jovem Marcelo de Oliveira Rocha morreu após ser violentamente agredido na madrugada de 24 de outubro, depois de participar de uma atividade cultural e política, embora a motivação política do crime não tenha sido comprovada. Após a divulgação do resultado eleitoral, em João Pessoa, um homem armado com um facão foi filmado perseguindo pessoas que se dirigiam às comemorações em Tambaú. Também houve notícias de atropelamento de participantes de uma comemoração eleitoral em Juquitiba (SP).
Esses acontecimentos suscitam uma reflexão histórica e política que não pode ser ignorada. O fascismo, em suas diferentes manifestações históricas, mobilizou mecanismos de construção de inimigos internos, disseminação do ódio, estigmatização de adversários, intimidação e legitimação da violência. Os estudos sobre o neofascismo analisam como determinados movimentos contemporâneos recuperam ou adaptam elementos dessas experiências, ainda que em condições históricas e institucionais distintas. O bolsonarismo, ao longo dos últimos anos, tem sido objeto desse debate justamente pela presença, em segmentos do movimento, de discursos e práticas que remetem a elementos do repertório político fascista, como a hostilidade ao pluralismo, a deslegitimação de adversários e a tolerância ou o incentivo à intimidação política. As campanhas recentes de boicote e exposição pública de comerciantes identificados como petistas constituem novos elementos destas práticas.
É evidente que não se trata de estabelecer uma equivalência automática entre a Alemanha nazista e o Brasil contemporâneo. Na Alemanha de 1933, a perseguição antissemita era organizada pelo partido que controlava o Estado, fundamentada numa ideologia racial e posteriormente convertida em política genocida. No Brasil, os episódios relatados envolvem iniciativas de grupos e indivíduos identificados com a extrema direita. Entretanto, as diferenças históricas não eliminam a necessidade de reconhecer semelhanças nos mecanismos de estigmatização, identificação pública e exclusão econômica de grupos considerados inimigos.
A Noite dos Cristais constitui uma advertência histórica sobre os perigos da escalada da intolerância. Entre o boicote de 1933 e a violência generalizada de novembro de 1938, houve um processo de radicalização, acompanhado da progressiva destruição de direitos e da naturalização da perseguição. A história não determina que acontecimentos semelhantes tenham necessariamente o mesmo desfecho, mas demonstra que a omissão diante da discriminação e da violência pode favorecer seu agravamento.
Por essa razão, é indispensável que as autoridades policiais, o Ministério Público, o Ministério Público do Trabalho, a Justiça Eleitoral e os demais órgãos competentes, no âmbito de suas atribuições, investiguem rigorosamente as denúncias, assegurem proteção às pessoas ameaçadas e promovam a responsabilização daqueles que pratiquem condutas ilícitas. Não se deve esperar que a intolerância alcance proporções ainda mais graves para que as instituições democráticas cumpram seu dever de agir.
Divergir politicamente é um direito fundamental. Ameaçar, perseguir, discriminar trabalhadores ou transformar adversários em pessoas economicamente indesejáveis não constitui exercício legítimo dessa liberdade. A democracia pressupõe o reconhecimento de que as diferenças políticas, por mais profundas que sejam, não retiram de ninguém o direito de trabalhar, de exercer uma atividade econômica e de participar plenamente da vida social.
A experiência histórica do fascismo nos ensina que a violência não surge necessariamente de maneira repentina. Ela pode ser precedida por discursos de ódio, práticas de exclusão, ameaças e pela progressiva desumanização daqueles que são apresentados como inimigos. A lição que devemos extrair da história não é a de que uma tragédia inevitavelmente se repetirá, mas a de que é necessário reconhecer seus sinais de alerta e impedir que a intolerância se transforme em perseguição e violência sistemáticas.
Professor do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba.
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