Jornalista potiguar Victor Ferreira lança livro infantil “O Reino do Tudo Igual”
“Quem haverá de curar essa onda de melancolia?”, é a pergunta que conduz a história assinada pelo jornalista potiguar Victor Ferreira. O livro “O Reino do Tudo Igual” recebeu um grande lançamento, neste final de semana, na Livraria da Vila, em São Paulo. A obra propõe uma reflexão sobre a diversidade e a riqueza da pluralidade de opiniões, sobretudo em tempos de intolerância. O NOVO Notícias conversou com o autor.
A história se desenrola em um reino distante, com padrões rígidos e regras bem definidas, onde tudo era milimetricamente previsível, planejado, esperado e com certezas. Quem, por acaso, sentisse no coração uma vontade de fazer diferente, ouvia logo o chamado de alguém experiente: “Não ouse mudar as leis! São as ordens do nosso rei, deixadas por seus ascendentes!”. Mas, como o destino prega peças, o reino tão vigiado caiu em maldição. Não se falava em outra coisa, só na tristeza da nação. O rei, preocupado com o seu povo, mas resistente às quebras de paradigmas, então resolve buscar uma saída.
“Brincamos com as rimas para dar ritmo à história. É uma forma de usar a ludicidade para discutir assuntos sérios. O livro é um convite ao exercício de enxergar o outro com empatia e perceber que diferenças somam. Tenho as metáforas como aliadas para alcançar até mesmo as crianças que já têm boletos a pagar”, brinca Victor Ferreira.
Victor nasceu em Natal, em 1992. A sensibilidade de sua mãe ao perceber, desde cedo, um filho fascinado pela comunicação, fez a diferença na construção de quem se tornou. Cresceu entre livros, abraços e peças de teatro. Formou-se em Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e exerceu os primeiros anos de profissão como repórter em emissoras de televisão da capital potiguar, como a TV Ponta Negra. Em 2018, mudou-se para São Paulo.
Desde então, atua no SBT. Entusiasta do público infantil, também é ator e roteirista de espetáculos teatrais voltados para pais e filhos, como o Mamãe Retrô. “Gosto de produzir obras em que podemos nos comunicar com gente de todas as idades. A construção de significados depende da bagagem que cada um traz consigo”, explica.
O livro tem como inspiração a relação do autor com a sua irmã, Letícia, de 15 anos, pessoa com deficiência. “Há alguém muito especial em um reino chamado Natal que, desde pequenina, caminhou contra a monotonia de ser igual. Lelê, minha amada irmã, a quem eu carinhosamente chamo de Bêu, fez da síndrome que possui, ponto de partida. Colore o mundo com as suas ideias e pensamentos, provando que somos exatamente do jeito que haveríamos de ser. Aliás, ‘saber ser’ é um dom que as crianças dominam. Essa história se inspirou em Lelê, na nossa mãe, Jéssica, genuína entusiasta da inclusão e do respeito às diferenças, e em toda a gente que acredita na riqueza da representatividade. Tenho sorte de ter crescido entre pais, familiares e amigos que também acreditam nisso, mas reconheço que não é um privilégio de todos. Preciso também destacar o papel da escola em que tive os meus talentos otimizados, o NEC Pinguinho de Gente. Outro dia ouvi que ‘a infância é um chão em que se pisa pelo resto da vida’. Essa é a mais pura verdade”, acrescenta.
Outro diferencial da obra está no trabalho do renomado ilustrador carioca Fernando Zenshô, que produziu as aquarelas que colorem a história. “O trabalho do Fernando Zenshô foi de uma sensibilidade incrível. Uma boa parte do livro é feita de cores mórbidas e monocromáticas, até o povo do Reino encontrar a saída para a monotonia. É quando o leitor passa a se deparar com cores e mais cores nas páginas. Zenshô também trouxe uma percepção interessante sobre os bichos que guardamos consigo e sobre o valor de colocá-los para fora. As ilustrações são peça-chave nesta aventura”, acrescentou Victor.
Questionado sobre o hábito da leitura em dias atuais, Victor respondeu: “A neurociência já confirma que o consumo rápido de conteúdos curtos na internet está atrofiando nossa capacidade de leitura profunda e retenção de informações. As telas acostumaram o nosso cérebro a interações rápidas, o que prejudica a concentração em textos longos. Mas nem tudo está perdido. Também percebo um movimento interessante de resgate do que nos faz bem. O prazer de abrir um livro, manusear e observar as páginas, de ter a história contada pelos nosso pais, avós, professores, ou alguém que amamos, é algo seguramente insubstituível. Nenhuma I.A. é capaz de dar conta. Tenho a discreta sensação de que as pessoas já começaram a perceber isso. Ler para as crianças que já nasceram imersas em tecnologia pode definir o curso do que virá pelos próximos anos”, diz Victor.
“O Reino do Tudo Igual” foi publicada pela PeraBook, do Grupo Elo Editorial, de São Paulo, e também conta com recursos de acessibilidade, como audiodescrição, tradução em Libras e imersão em realidade virtual. A editora aposta em obras que tratam da construção de valores.
Em setembro, “O Reino Tudo Igual” contará com uma sessão de lançamento em Natal. “Natal é o meu reino. O reino de onde vim, que carrego comigo e que guardo no coração. É um lugar que também me inspira a criar, sobretudo porque onde há afeto, há criatividade”, conclui.
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