Gilmar Mendes e André Mendonça, ministros do STF | Foto: Reprodução
Ministro afirma que informações envolvendo Nunes Marques e outros magistrados passaram despercebidas e defende levantamento de todos os citados no acervo
Publicado 29 de setembro de 2026 às 12:46
O ministro Gilmar Mendes afirmou que integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) encontraram, em menos de 24 horas de acesso aos dados extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, informações envolvendo outros ministros do Supremo. Segundo ele, os dados estavam há meses no material analisado pela relatoria de André Mendonça e “passaram despercebidos” nesse período.
A afirmação consta do voto de Gilmar na Petição 16.662, que reúne discussões relacionadas ao relatório da Polícia Federal produzido a partir do celular de Vorcaro. Ele afirma que os demais integrantes do STF só tiveram acesso aos dados brutos na tarde de 14 de setembro, depois de “sucessivos ofícios” para que o acervo fosse compartilhado.
Segundo ele, há informações e mensagens relacionadas ao ministro Kassio Nunes Marques e ao filho dele, o advogado Kevin Marques.
No voto, o ministro propõe que o STF faça um levantamento de todos os magistrados citados no material do caso Master, incluindo integrantes do próprio Supremo, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e de outros tribunais.
A ideia, segundo Gilmar, é identificar quais magistrados aparecem no material e se há indícios de recebimento indevido de valores do Master, de empresas ligadas ao banco, de sócios ou administradores. O levantamento também serviria para verificar se algum ministro deve ser considerado impedido de participar dos julgamentos relacionados ao caso.
Um dos pontos destacados envolve uma conversa de 1º de outubro de 2024 entre Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, e Daniel Vorcaro. Rennó informou a Vorcaro o resultado de um julgamento e registrou o placar: “3 (Fachin/Tofoli/Kassio) x 2 (Gilmar e André) desprovido o recurso da União”.
Pouco depois, Rennó encaminhou a Vorcaro o contato de Kevin Marques, filho de Kassio Nunes Marques, com a mensagem: “Dominado aqui”. Segundo Gilmar, o resultado coincide com uma votação realizada pelo STF naquele mesmo dia, envolvendo um recurso relacionado à Destilaria Alcídia. Fachin, Toffoli e Nunes Marques formaram a maioria. Gilmar e Mendonça ficaram vencidos.
O voto registra ainda que Nunes Marques havia sido apontado como impedido no processo em fevereiro de 2024. Mas, no mês seguinte, o ministro reviu a questão e se declarou apto a votar. Em setembro, pediu vista e, em 1º de outubro, apresentou o voto que desempatou o julgamento.
Outras mensagens reproduzidas no voto também mencionam Kevin Marques. Em agosto de 2025, Rennó escreveu que, entre os “pagamentos essenciais”, estava faltando “a consult”. E encaminhou o contato de Kevin com a mensagem: “Único ‘meu’ que faltou”. Depois, disse: “Foi pago”. Em outra conversa, de 4 de julho de 2025, o mesmo contato aparece acompanhado da pergunta: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”.
O material, porém, não permite concluir que Kevin Marques recebesse R$ 500 mil por mês, nem que o valor mencionado tivesse necessariamente relação com ele. Gilmar Mendes faz essa ressalva no voto: “São conversas, e conversas não são condenações”.
O voto também cita reportagens que, com base em dados do Coaf, informaram que Kevin recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em 11 transferências. A empresa teria recebido R$ 18 milhões entre agosto de 2024 e julho de 2025, sendo R$ 6,63 milhões do Master e R$ 11,38 milhões da JBS.
Kevin afirmou que os pagamentos eram referentes a trabalho na área tributária e negou que suas empresas tenham mantido negócios com o Master ou com a JBS. A Consult afirmou que os valores pagos ao advogado correspondiam a serviços técnicos e jurídicos. Nunes Marques disse nunca ter prestado serviços ou consultoria à empresa.
Outro ponto citado por Gilmar envolve um contrato de honorários que poderia alcançar R$ 427 milhões. Segundo reportagem mencionada no voto, o acordo com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos previa honorários de 5% sobre valores que o Master recebesse em 12 processos relacionados ao setor sucroalcooleiro. Entre os integrantes do escritório está a advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador federal Newton Ramos, do TRF-1.
As ações envolviam indenizações relacionadas ao controle de preços do açúcar e do álcool, tema que também aparece no processo da Destilaria Alcídia.
Nunes Marques argumentou que o Master não era parte naquele processo. Gilmar reconhece esse ponto, mas afirma que a tese jurídica definida pelo STF poderia produzir efeitos em outras ações nas quais o banco tivesse interesse econômico. O ministro voltou a fazer uma ressalva: as mensagens e informações citadas no voto não permitem, por si só, concluir pela existência de irregularidade envolvendo Nunes Marques.
Em outro trecho do voto, Gilmar acusa Mendonça de ter dado um “inequívoco viés político-eleitoral” à condução do caso. Segundo ele, informações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes haviam vindo a público em março de 2026 e apareciam em um relatório da Polícia Federal no mês seguinte.
Ele afirma que novas providências só teriam sido determinadas durante o período eleitoral. Gilmar também critica o levantamento do sigilo antes de o Plenário analisar a questão.
As críticas foram feitas por Gilmar no voto e não representam uma conclusão do STF sobre a atuação de Mendonça. Ao defender que todos os nomes sejam submetidos ao mesmo critério de apuração, Gilmar resumiu sua posição: “Os fatos serão apurados — todos eles e de todos”.
No voto, Gilmar propõe reunir as Petições 16.662 e 16.704, redistribuir os procedimentos pelas regras regimentais do STF, identificar os magistrados citados e verificar eventuais indícios de pagamentos indevidos.
A proposta foi acompanhada pelos ministros Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes, mas o julgamento foi suspenso após pedido de vista do ministro Flávio Dino. O STF ainda não havia analisado o mérito da Petição 16.662.
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