Filme sobre Jair Bolsonaro teve gastos declarados em perícia anexada ao processo | Foto: Reprodução
Antônio Carlos Freixo Júnior alegou acreditar em investimento imobiliário, mas investigadores acharam termo em inglês citando a produção audiovisual
Publicado 17 de outubro de 2026 às 09:20
O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, afirmou em depoimento de delação premiada à Polícia Federal (PF) que tentou reaver sem sucesso os US$ 12,3 milhões — equivalentes a R$ 62,8 milhões na cotação da época — transferidos para o fundo responsável por financiar o filme Dark Horse, que aborda a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em contrapartida, relatório da PF contesta a versão apresentada pelo colaborador, apontando a existência de documentos apreendidos que contradizem suas alegações. Diante da necessidade de aprofundar as apurações, a corporação solicitou ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça a prorrogação do inquérito por mais 90 dias.
Freixo Júnior, proprietário da empresa Entre Investimentos, fechou acordo de colaboração homologado por Mendonça em setembro. Conforme as investigações, a firma do empresário realizou sete repasses financeiros entre janeiro e setembro de 2025 ao fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
A quantia havia sido solicitada ao ex-controlador do extinto Banco Master, Daniel Vorcaro, pelo senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), que nega irregularidades na captação dos recursos para a cinebiografia.
Em sua oitiva realizada no dia 1º de outubro, o delator declarou que realizou os aportes a pedido de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e com confirmação posterior do próprio banqueiro, sob a justificativa de contornar entraves cadastrais em companhias do grupo.
Freixo Júnior sustentou aos delegados que acreditava estar subscrevendo cotas de um fundo de investimento voltado ao mercado imobiliário nos estados da Flórida e do Texas, afirmando que só descobriu a destinação cinematográfica dos montantes após revelações da imprensa. O empresário declarou ainda que, ao tomar ciência dos fatos, notificou os gestores para solicitar o resgate integral do capital por receio de danos à sua reputação comercial, mas não obteve retorno.
A equipe da Polícia Federal, no entanto, identificou indícios que enfraquecem o relato do colaborador. Os investigadores ressaltaram que uma carta-acordo apreendida entre a gestora do fundo e a Entre Investimentos registrava expressamente em inglês que o tempo era essencial para a produção do longa-metragem (“time is of the essence to the production of the film”), o que demonstra aparente contradição com a tese de desconhecimento prévio.
A corporação apontou ainda que o único registro eletrônico de cobrança entregue pelo delator data de 24 de abril de 2026 e limitava-se a consultar o saldo subscrito e trâmites de resgate, sem a apresentação de notificações formais com exigência do balancete completo do investimento. Além de cobrar a entrega desses comprovantes ao colaborador, a PF justificou a extensão do prazo de investigação no STF para concluir perícias contábeis e analisar quebras de sigilo bancário e telemático decorrentes da operação internacional.
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