Porto de Natal deve iniciar exportação de gado vivo em agosto; atividade pode injetar até R$ 1,5 bilhão por ano no RN

Cotidiano

Pecuária Porto de Natal deve iniciar exportação de gado vivo em agosto; atividade pode injetar até R$ 1,5 bilhão por ano no RN

Primeiro embarque comercial depende apenas da conclusão das negociações entre exportadores e compradores; a expectativa é de que a operação comece ainda em agosto e diversifique as atividades do terminal portuário

por: Marline Negreiros

Publicado 13 de julho de 2026 às 15:00

A exportação de gado vivo pelo Porto de Natal está mais próxima de se tornar realidade. Após a habilitação do terminal pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), considerada o último requisito regulatório para esse tipo de operação, o Rio Grande do Norte reúne as condições necessárias para realizar o primeiro embarque comercial de animais destinados ao mercado internacional. A expectativa do Governo do Estado é de que a primeira operação aconteça ainda em agosto, enquanto a Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) afirma que a estrutura portuária está pronta e aguarda apenas a definição comercial entre exportadores e compradores.

A autorização concedida pelo Ministério da Agricultura colocou o Porto de Natal entre os quatro portos brasileiros habilitados a exportar animais vivos. A medida representa uma nova frente para a movimentação econômica do terminal e amplia as possibilidades de comercialização da pecuária potiguar no mercado externo.

Segundo o secretário estadual da Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, a habilitação elimina o último entrave burocrático para o início das operações. “Hoje, o Porto de Natal já está habilitado. Agora temos plenas condições de realizar a primeira exportação de gado vivo”, afirmou.

Embora o porto esteja apto, a exportação depende também da existência de uma Estação de Pré-Embarque (EPE), estrutura onde os animais permanecem em quarentena antes do embarque internacional.

Na prática, a EPE funciona em uma fazenda ou em uma área específica destinada ao confinamento temporário do rebanho. Durante esse período, os animais passam por monitoramento sanitário para comprovar que estão livres de doenças e atendem às exigências estabelecidas pelo Ministério da Agricultura brasileiro e pelas autoridades sanitárias do país importador.

Segundo Saldanha, a negociação entre importadores, exportadores e responsáveis pelas estações de pré-embarque ocorre exclusivamente entre as empresas envolvidas, sem interferência do Estado.
“Nós acompanhamos o processo, conhecemos os envolvidos, mas essa relação comercial pertence às empresas. A expectativa é de que o primeiro embarque ocorra em agosto”, disse.

Um mercado inédito para o Estado

Embora o Rio Grande do Norte já tenha realizado exportações de bovinos vivos, essas operações envolveram animais de alto valor genético destinados à reprodução e enviados por transporte aéreo.
A nova modalidade será diferente.

Pela primeira vez, o Estado deverá exportar animais destinados ao abate, principalmente para países do Oriente Médio e do Norte da África, mercados onde a importação de animais vivos faz parte da cadeia de abastecimento de carne.

Esse tipo de operação representa um mercado significativamente maior do que o segmento voltado ao melhoramento genético.

Interesse cresce antes mesmo do primeiro embarque

Mesmo antes da estreia da operação, o Governo do Estado afirma já receber consultas de empresas interessadas em utilizar o Porto de Natal.

Segundo Guilherme Saldanha, importadores estrangeiros e exportadores brasileiros têm visitado o Rio Grande do Norte para conhecer a estrutura disponível.

“Estamos recebendo vários interessados em realizar embarques pelo Estado. Isso demonstra que existe demanda e confiança na estrutura que foi construída.”

A expectativa inicial é de que os primeiros navios embarquem predominantemente animais produzidos no Rio Grande do Norte. Entretanto, conforme o mercado aumentar, a tendência é que rebanhos de outros estados nordestinos também sejam concentrados no território potiguar antes da exportação.

“O Rio Grande do Norte tem capacidade para produzir animais para exportação, mas, à medida que o mercado crescer, será necessário complementar a oferta com animais de outros estados”, explicou o secretário.

Porto pronto para operar

Do lado da infraestrutura, a Companhia Docas do Rio Grande do Norte afirma que todas as exigências técnicas foram cumpridas.

Segundo a Codern, o Porto de Natal já possui instalações e condições operacionais suficientes para receber embarques regulares de animais vivos.

A companhia informa que a autorização do Ministério da Agricultura encerrou o processo de adequação exigido para esse tipo de movimentação.

Com isso, a realização da primeira exportação depende exclusivamente das definições comerciais entre exportadores e compradores internacionais.

“O Porto de Natal está apto a realizar operações de exportação de animais vivos, tendo cumprido todas as exigências técnicas e estruturais necessárias”, informou Paulo Henrique de Macedo Carlos, diretor-presidente da Companhia.

Inicialmente, estava prevista a realização de um embarque-teste, mas a conclusão da habilitação tornou a etapa desnecessária para o funcionamento do terminal.

A companhia esclarece ainda que não participa das negociações comerciais com países compradores. Essa responsabilidade cabe às empresas exportadoras.

Diversificação das cargas

Para a administração portuária, a exportação de gado vivo representa mais do que uma nova atividade operacional.

A expectativa é a de ampliar o perfil de cargas movimentadas pelo Porto de Natal e aumentar sua competitividade em relação a outros terminais brasileiros.

Atualmente, o porto concentra grande parte de sua movimentação na exportação de frutas frescas e na importação de produtos diversos.

A inclusão da carga viva cria uma alternativa de operação ao longo do ano e reduz a dependência da sazonalidade de alguns segmentos exportadores.

Segundo a Codern, a nova modalidade fortalece a estratégia de diversificação das atividades econômicas desenvolvidas no terminal.

Projeção econômica

A Secretaria da Agricultura trabalha com uma perspectiva ambiciosa para os próximos anos. A estimativa é de que, em um período de dois a três anos, o Rio Grande do Norte responda por aproximadamente 15% das exportações brasileiras de gado vivo.

Caso esse cenário se confirme, a atividade poderá movimentar entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão por ano na economia potiguar

Para ilustrar o potencial da nova cadeia produtiva, Guilherme Saldanha faz um paralelo com a fruticultura irrigada.

Segundo ele, o setor levou cerca de quatro décadas para atingir um patamar próximo de US$ 300 milhões anuais em exportações, o equivalente a aproximadamente R$ 1,5 bilhão injetados todos os anos na economia do Estado.

“Acreditamos que a exportação de gado vivo poderá alcançar números semelhantes em um espaço de tempo muito menor.”

Segundo o secretário, o mercado brasileiro movimenta atualmente entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões por ano e apresenta tendência de crescimento.

Vantagem geográfica

Entre os fatores considerados estratégicos para o avanço da atividade, está a localização do Porto de Natal.

A proximidade com rotas marítimas internacionais reduz o tempo de navegação até os mercados importadores e pode diminuir custos logísticos.

Na avaliação do Governo do Estado, essa vantagem torna o terminal mais competitivo em relação a outros portos brasileiros habilitados para a exportação de animais vivos.
Reflexos na pecuária

A expectativa do Governo é de que o novo mercado estimule investimentos nas propriedades rurais.
Com uma demanda maior por animais destinados à exportação, os produtores poderão investir em melhoramento genético, manejo, alimentação e ampliação dos rebanhos.

Segundo Guilherme Saldanha, os preços pagos pelos animais destinados ao mercado internacional podem superar em até 15% aqueles praticados no mercado interno.

Esse diferencial pode aumentar a rentabilidade dos produtores e incentivar novos investimentos na atividade pecuária.

Agricultura familiar também deve participar

O Governo do Estado pretende incluir os pequenos produtores na nova cadeia produtiva. A Secretaria da Agricultura já iniciou diálogos com representantes da agricultura familiar para avaliar formas de inserção desse público na produção destinada à exportação.

Uma das possibilidades estudadas é a implantação futura de estações de pré-embarque em áreas de assentamentos rurais, permitindo que pequenos criadores também forneçam animais para o mercado externo.

“A agricultura familiar tem condições de participar desse processo e queremos construir essa oportunidade junto aos produtores”, afirmou o secretário.

Para o Governo, a abertura desse mercado poderá fortalecer toda a cadeia da pecuária nordestina, ampliando investimentos privados, estimulando novos negócios e consolidando o Porto de Natal como uma alternativa logística para a exportação de animais vivos.

Como funciona a exportação de gado vivo

  • Antes do embarque internacional, os animais passam por uma Estação de Pré-Embarque (EPE), onde permanecem em quarentena sob acompanhamento veterinário.
  • Durante esse período, são realizados controles sanitários para comprovar que o rebanho atende às exigências do Brasil e do país importador.
  • Somente após a certificação sanitária, os animais são autorizados a seguir para o porto e embarcar nos navios.

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