Dados podem ampliar o conhecimento da população sobre a conservação dos recursos hídricos. Foto: Cícero Oliveira/Agecom/UFRN

Dados podem ampliar o conhecimento da população sobre a conservação dos recursos hídricos. Foto: Cícero Oliveira/Agecom/UFRN

Cotidiano

Ciência Monitoramento da UFRN identifica nitrito em lagoas da Grande Natal

A detecção do composto não permite, sozinha, afirmar que a água esteja imprópria para consumo ou que exista uma situação de risco imediato para a população. No entanto, indica a necessidade de acompanhar a concentração do nitrito e de investigar as condições ambientais das áreas onde as amostras foram coletadas

por: Agecom/UFRN

Publicado 24 de setembro de 2026 às 19:30

O Laboratório de Toxicologia do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DACT/CCS/UFRN) identificou a presença de íons nitrito em amostras de água coletadas em lagoas da Região Metropolitana de Natal. A análise integra o projeto de extensão Monitoramento de íons nitrito em águas de lagoas da região metropolitana de Natal/RN – ano 2026.

A iniciativa é coordenada pela professora Aline Schwarz, do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas do Centro de Ciências da Saúde da UFRN (DACT/CCS/UFRN). A docente dedica-se à coordenação de projetos de extensão focados em toxicologia ambiental, monitoramento da qualidade da água, saúde pública e conscientização comunitária.

“O nosso projeto vem em cima disso mesmo, vem em cima da qualidade da água. O foco são lagoas da Região Metropolitana de Natal. Então existem as duas regiões metropolitanas, Norte e Sul, e a gente coleta periodicamente, duas vezes por ano – semestralmente, assim dizendo –, amostras de 5 lagoas da região Norte e 6 lagoas da região Sul. E agora estamos aqui no laboratório fazendo as análises dessas águas coletadas”, explica Aline.

O resultado reforça a importância da manutenção de uma rotina de análises ambientais. A detecção do composto não permite, sozinha, afirmar que a água esteja imprópria para consumo ou que exista uma situação de risco imediato para a população. No entanto, indica a necessidade de acompanhar a concentração do nitrito e de investigar as condições ambientais das áreas onde as amostras foram coletadas.

O projeto tem como objetivo dar continuidade, ao longo de 2026, ao monitoramento periódico da qualidade da água de lagoas da região. A iniciativa também prevê a divulgação dos resultados e de informações educativas sobre o nitrito, a preservação ambiental e a relação entre a qualidade da água e o saneamento básico.

A respeito da função social do trabalho, a docente reforça: “O projeto tem esse perfil extensionista para levar de volta essas informações à população sobre a qualidade da água das lagoas e também informar a respeito de como preservar esses corpos aquáticos”. 

Nitrito

O nitrito é uma forma nitrogenada que pode estar presente na água em razão de processos naturais ou da ação humana. Entre as possíveis fontes estão o lançamento de esgoto doméstico, a decomposição de matéria orgânica e o escoamento de áreas onde são utilizados fertilizantes nitrogenados.

Por esse motivo, a quantificação do composto pode contribuir para a avaliação das condições ambientais das lagoas. A concentração encontrada em uma amostra pode variar de acordo com fatores como o período do ano, a ocorrência de chuvas, a circulação da água e a proximidade de áreas urbanizadas.

A presença de nitrito não deve ser analisada de maneira isolada. Para avaliar a qualidade de um corpo d’água, é necessário considerar outros parâmetros físico-químicos e microbiológicos, além das características do local de coleta. Ainda assim, o composto é um indicador relevante porque pode sinalizar alterações no ciclo do nitrogênio e possíveis contribuições de fontes de poluição.

A principal contribuição da pesquisa está na produção de uma série histórica de dados. O projeto prevê a comparação dos resultados atuais com informações reunidas entre 2020 e 2025. Esse acompanhamento permite observar se os níveis de nitrito permanecem estáveis, se apresentam variações sazonais ou se indicam uma tendência de aumento ou redução ao longo do tempo.

Segundo a proposta do projeto, o monitoramento é especialmente importante porque as lagoas são corpos d’água superficiais que podem desempenhar funções ambientais e, em alguns casos, estar relacionadas ao abastecimento. A análise periódica ajuda a identificar mudanças antes que elas se transformem em problemas mais graves para a saúde pública ou para a preservação dos ecossistemas.

A Profa. Aline Schwarz lembra a ligação direta de diversas lagoas com a rede pública de água: “Muito da água captada vem de algumas das lagoas que a gente analisa, como Bonfim e Extremoz – água que chega às nossas casas através da torneira. Evidentemente, essas águas são tratadas; o que a gente faz é analisar a água bruta coletada diretamente da lagoa, sem tratamento algum. Então, essa lacuna a gente preenche trabalhando junto, por exemplo, com a CAERN”.

Apoio a fiscalização

O acompanhamento também pode fornecer subsídios para ações de fiscalização, planejamento urbano, melhoria do saneamento e educação ambiental. Dessa forma, o trabalho não se limita à realização de exames laboratoriais: os dados podem apoiar decisões do poder público e ampliar o conhecimento da população sobre a conservação dos recursos hídricos.

O projeto utiliza como referência a concentração máxima de 1 mg/L de nitrito para água destinada ao consumo humano. Esse tipo de parâmetro permite comparar os resultados obtidos no laboratório com um valor de referência sanitária. A EPA, agência ambiental dos Estados Unidos, também reconhece os nitritos como contaminantes que exigem controle devido aos possíveis efeitos à saúde, incluindo riscos associados à chamada ‘síndrome do bebê azul’ (ou cianose neonatal), que é uma condição médica caracterizada pela coloração azulada ou arroxeada da pele, dos lábios e das unhas do recém-nascido, causada pela baixa quantidade de oxigênio no sangue.

A comparação, porém, precisa ser feita com cuidado. O limite aplicado à água destinada ao consumo humano não significa que toda lagoa tenha de ser imediatamente considerada potável ou imprópria com base apenas na presença do composto. A interpretação depende da concentração medida, do tipo de água analisada, da finalidade daquele corpo d’água e dos demais resultados laboratoriais.

Por isso, a divulgação responsável deve apresentar os números, as unidades de medida, os locais e as datas de coleta, além da avaliação dos pesquisadores. A presença do nitrito é um sinal que merece atenção, mas não substitui uma análise completa da qualidade da água.

O monitoramento está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas, especialmente o ODS 3, relacionado à saúde e ao bem-estar, e o ODS 6, que busca assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todas e todos. Por meio da divulgação dos resultados na página pública @nitritoemlagoas.ufrn, o projeto pretende tornar acessíveis informações que normalmente ficam restritas aos relatórios técnicos e ao ambiente acadêmico.

A comunicação dos dados pode contribuir para que moradores, estudantes, gestores e organizações ambientais compreendam melhor a situação das lagoas e participem da preservação desses espaços. Informar a população é uma etapa importante para estimular o descarte correto de resíduos, combater o lançamento irregular de esgoto e fortalecer a cobrança por políticas públicas de saneamento.

Conscientização

Sobre a conscientização comunitária e os impactos do turismo e da ocupação urbana, a professora assinala: “As lagoas de potencial turístico são diversas que a gente analisa, como Carcará e Pitangui. Você chega a ver muitos bares, pedalinhos para alugar, enfim, muita gente usufruindo dessas lagoas lindas. A intenção nossa é tentar colaborar com a qualidade da água destas lagoas, trazendo a informação de não deixar lixo nas lagoas e, para quem mora ali próximo, alertar sobre a situação das fossas. Fazer manutenção periódica dessas fossas… se não houver manutenção, ocorre um extravasamento que vai poder contaminar o lençol freático e a água dessas lagoas”, ressalta Aline.

A continuidade da pesquisa também é essencial para ampliar a série histórica e aperfeiçoar o diagnóstico das lagoas da Região Metropolitana de Natal. Com dados produzidos em diferentes períodos e pontos de coleta, torna-se possível compreender melhor as causas das variações e orientar medidas de prevenção.

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