Manifestação terminou em tumulto, agressões físicas e danos ao patrimônio no campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), na segunda-feira (19) - Foto: Reprodução/@uefyerryeni

Cotidiano

Violência Mensagens de grupo de WhatsApp indicam planejamento prévio da manifestação de direita que terminou em confronto na UFRN

Registros obtidos pelo NOVO apontam articulação com lideranças do PL desde o início de outubro para confrontar grupos de esquerda na universidade

por: NOVO Notícias

Publicado 23 de outubro de 2026 às 12:31

Mensagens trocadas em um grupo de WhatsApp por integrantes do movimento “UFRN Anti-Lula 22” indicam que a manifestação que terminou em tumulto, agressões físicas e danos ao patrimônio no campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), na segunda-feira (19), foi organizada previamente em redes digitais. Segundo as conversas, obtidas pelo NOVO, os planos incluíam mobilização de rua, distribuição de material de campanha favorável a Flávio Bolsonaro (PL), contratação de paredão de som e interlocução com parlamentares da bancada conservadora potiguar.

O confronto ocorreu na tarde de segunda-feira, no Setor IV do campus, em Natal, durante o ato “Vire à direita: UFRN anti-Lula”, que reuniu militantes de partidos de direita, com carro de som e fogos de artifício. Estudantes que estavam em sala de aula reagiram e formaram um cordão de bloqueio. Houve empurrões, socos e danos a um portão de ferro que separa os setores III e IV, e um estudante de jornalismo ficou ferido.

No dia seguinte, no dia 20, a Reitoria da UFRN divulgou nota de repúdio à ação, classificada como não autorizada, e anunciou medidas administrativas e judiciais, com encaminhamento a órgãos como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal (MPF) e a Justiça Eleitoral.

Planejamento do ato

O histórico das mensagens indica que os primeiros planos começaram a circular em 8 de outubro. Participantes defenderam carreatas e manifestações com equipamentos de som potentes durante o horário de aulas, para demonstrar a existência de correntes de direita na instituição e questionar a hegemonia de movimentos de esquerda.

Às 22h27 daquele dia, um participante propôs: “Pessoal, falando sério. Acho que devíamos nos organizar e fazer um ato de apoio ao Flávio Bolsonaro. O que vocês acham da ideia?”. Na mesma conversa, um membro disse que levaria 200 adesivos para panfletagem no campus, e outro afirmou manter contato direto com dirigentes do PL estadual para estruturar a presença no local.

Em 17 de outubro, os participantes formalizaram a convocação para o ato da segunda-feira seguinte, dia 19, às 16h, nas imediações do Centro de Ciências Exatas e da Terra (ECT), com anúncio da presença do deputado federal General Girão (PL-RN) e a promessa de ações de impacto visual. Um dos participantes explicou o objetivo: “Será uma mensagem que mais uma vez iremos passar à esquerda universitária, que eles não são maioria e que existem muitos alunos de direita na UFRN”.

Em mensagem enviada às 11h27 do dia 17, outro integrante escreveu: “Haverá a presença de vários parlamentares de direita, como por exemplo o Dep. Federal General Girão, que já está com a roupa de ir”.

O material inclui ainda declarações de retórica agressiva que sugeriam a retirada à força de propaganda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva espalhada pela universidade.

Na noite anterior ao ato, a convocação foi divulgada com local e horário definidos. Às 21h38, uma mensagem com o título “Segunda-feira é dia de virar à direita!” convocava participantes para o Setor IV, próximo ao ECT, às 16h do dia seguinte, e pedia que os integrantes convidassem outras pessoas. Na mesma noite, outro participante escreveu: “Amanhã é nosso grande dia”, e acrescentou que o objetivo era “mostrar a força da direita na UFRN e mandar uma mensagem para a esquerda universitária”. Por fim, afirmou: “Está tudo devidamente organizado para amanhã”.

Repercussão do confronto

O ato do dia 19 contou com a presença do deputado federal General Girão (PL) e da vereadora de Natal e deputada estadual eleita Camila Araújo (PL). Vídeos que circularam nas redes sociais mostram empurrões e agressões físicas entre alunos e os integrantes da manifestação de direita. O portão que dá acesso aos setores III e IV da universidade foi danificado.

Mensagens trocadas no aplicativo logo após o confronto, na noite de segunda-feira, mostram que integrantes do grupo demonstraram preocupação com vídeos que registraram agressões a estudantes e com a possibilidade de processos judiciais.

A partir das 19h, minutos após o fim do tumulto, participantes passaram a compartilhar arquivos audiovisuais da briga e a elaborar versões defensivas. Um deles afirmou que um dos agredidos teria provocado os manifestantes de propósito.

Às 19h09, um participante alertou os colegas: “Galera, com essas filmagens aí podem dar repercussão negativa e até processos”, e afirmou que os vídeos mostravam “só o cara provocando e apanhando”, em referência ao estudante de jornalismo agredido.

Às 19h24, um integrante escreveu ter quebrado o próprio capacete durante a briga, em mensagens que comemoravam o episódio.

No mesmo período, membros do grupo ventilaram a realização de um novo ato no campus antes do fim da semana. Um participante afirmou que a assessoria do deputado General Girão estaria disposta a integrar o planejamento da próxima mobilização. A afirmação partiu de um integrante do grupo e não constitui manifestação oficial da equipe do parlamentar.

Para conter o desgaste público, organizadores enviaram às 20h26 orientações para uma ofensiva nas redes sociais. A mensagem determinava que os integrantes curtissem, comentassem e compartilhassem apenas as publicações favoráveis do próprio movimento no Instagram, evitassem interagir com reportagens em sites jornalísticos e denunciassem o veículo na plataforma.

19/10/2026 20:26:

“PESSOAL, URGENTE 🚨🚨🚨🚨

ORIENTAÇÕES PARA REDES SOCIAIS:

  1. REPOSTEM, CURTAM E COMENTEM EM TODOS OS NOSSOS POSTS RECENTES DO INSTAGRAM
  2. NÃO ENGAJEM EM POSTS DO BG – NÃO PESQUISEM, NÃO ABRAM POST, NÃO VEJAM COMENTÁRIOS! SE APARECER, DENUNCIEM

[link de uma publicação no Instagram]

ENGAJEM AQ NOSSOS POSTS!!!”

Negativa do deputado

Em nota oficial, o deputado federal General Girão (PL-RN) rebateu as acusações de que teria participado diretamente da articulação ou da organização do ato. Segundo o parlamentar, sua presença atendeu a um convite de estudantes universitários conservadores, que, de acordo com ele, relataram desconforto com o uso de dependências acadêmicas para propaganda eleitoral da esquerda.

Ainda segundo a nota, a mobilização foi concebida para ocorrer de forma pacífica em uma via externa que contorna os blocos de aulas do Setor IV. Girão afirmou que os ânimos se exaltaram quando um integrante do grupo opositor se aproximou e usou uma faca para perfurar um boneco inflável do presidente Lula. Disse ter orientado os estudantes de direita a recuarem para evitar o confronto físico.

Deputada do PSOL aciona Conselho de Ética da Câmara contra General Girão após tumulto na UFRN – Foto: Reprodução

O deputado relatou que pediu à segurança patrimonial da UFRN providências para separar os grupos, pedido que, segundo ele, não foi atendido. Afirmou ainda ter telefonado ao secretário estadual de Segurança Pública e da Defesa Social para alertar sobre risco de violência e relatar o arremesso de pedras e a presença de supostas pessoas armadas, e que se afastou do local em seguida.

Hoje, General Girão é alvo de uma representação no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados devido à sua conduta durante um ato político. A medida foi apresentada pela deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG). Em suas redes sociais, Salabert classificou a participação do parlamentar como inadmissível, acusando-o de fomentar agressões físicas entre estudantes e de transformar um espaço de conhecimento em local de intimidação e violência política. A parlamentar também afirmou que o mandato não constituía licença para abuso de autoridade e cobrou apuração por parte do Conselho de Ética.

Vereadora aciona MPF

A vereadora Brisa Bracchi (PT) encaminhou ao Ministério Público Federal (MPF), nesta quarta-feira (21), uma representação sobre as agressões registradas no ato. O documento pede a abertura de investigação para identificar os envolvidos, a preservação de provas digitais e a apuração de possível propaganda eleitoral irregular dentro da universidade.

Segundo a representação, algumas mensagens do grupo continham ameaças e incentivo à violência contra adversários políticos. Uma delas diz: “Agnt tá se organizando pra matar os petistas de Natal RN”. Outra convocava participantes a “tumultuar” o ato. O documento também cita mensagens de teor homofóbico e racista.

Entre as providências solicitadas estão a instauração de procedimento investigatório ou a requisição de inquérito à Polícia Federal, a identificação dos envolvidos nas agressões e a oitiva de vítimas e testemunhas, com atenção especial ao estudante de Jornalismo.

A representação pede ainda que o WhatsApp preserve dados cadastrais e registros de acesso relacionados ao grupo, e que a Reitoria da UFRN preserve e envie imagens das câmeras de segurança do Setor IV e de áreas próximas, além de relatórios da segurança patrimonial e informações sobre autorizações de uso do espaço. Outro pedido é o encaminhamento do caso à Procuradoria Regional Eleitoral, para apurar possível propaganda eleitoral em bem público federal e eventual participação ou anuência de candidatos e partidos.

O documento solicita também a apuração de possíveis ameaças e de denúncias sobre o uso ilegal de sistemas de consulta de dados e a inserção de informações falsas sobre óbitos em sistemas do Sistema Único de Saúde (SUS). Pede, por fim, medidas preventivas para proteger a comunidade universitária diante de mensagens que anunciavam novos atos e possíveis agressões.

A representação foi encaminhada ao MPF em 21 de outubro. Ela apresenta os fatos e solicita providências, mas não significa que as condutas citadas tenham sido reconhecidas pela Justiça. As mensagens e alegações reproduzidas são de responsabilidade de seus autores e ainda estão sob apuração.

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