A tecnologia pode trazer mais agilidade e produtividade, mas também exige cuidado. | Foto: Reprodução
Advogado Marcelo Torres, mestre em Direito e especialista em Direito Civil e Empresarial, fala sobre os ganhos de produtividade, os riscos e os limites do uso da tecnologia nos escritórios
Publicado 17 de agosto de 2026 às 16:05
A Inteligência Artificial já entrou na rotina de muitos escritórios de advocacia e vem mudando a forma como os profissionais pesquisam, analisam processos e produzem documentos. A tecnologia pode trazer mais agilidade e produtividade, mas também exige cuidado. Entre os riscos estão informações incorretas, referências jurídicas inexistentes, problemas relacionados ao sigilo profissional e à proteção de dados.
Nesta entrevista, o advogado Marcelo Torres, mestre em Direito e especialista em Direito Civil e Empresarial, fala sobre os benefícios e os riscos do uso da IA e explica por que acredita que a tecnologia deve transformar a advocacia, e não substituir o advogado.

NOVO Notícias — Como a inteligência artificial já está sendo usada na rotina dos advogados e quais tarefas do dia a dia ela consegue agilizar?
Marcelo Torres — A IA já faz parte da rotina de muitos escritórios, e acredito que isso não tenha mais volta. Hoje, ela pode ajudar em tarefas simples, como organizar informações, resumir documentos e revisar textos, mas também em atividades mais complexas, como analisar contratos, estruturar argumentos jurídicos e auxiliar na preparação de peças processuais e na gestão do escritório.
No meu dia a dia, vejo a IA principalmente como uma ferramenta capaz de nos devolver algo muito valioso na advocacia: tempo. Muitas tarefas que antes exigiam horas de trabalho podem ter uma primeira análise feita em minutos. Isso permite que o advogado dedique mais tempo ao que realmente exige conhecimento jurídico, experiência, estratégia e contato com o cliente.
É importante deixar claro, porém, que agilizar uma tarefa não significa transferir para a máquina a responsabilidade por ela. A inteligência artificial auxilia o advogado, mas a análise e a decisão final continuam sendo nossas.
NOVO Notícias — Na prática, como a IA pode ajudar na pesquisa de leis e jurisprudência, na análise de processos e na elaboração de documentos?
Marcelo Torres — A capacidade de trabalhar com uma quantidade muito grande de informações em pouco tempo talvez seja uma das maiores contribuições da inteligência artificial para a advocacia.
Imagine um processo com milhares de páginas. A IA pode ajudar a identificar os fatos mais relevantes, organizar uma linha do tempo, localizar documentos e confrontar os argumentos apresentados pelas partes. Também pode apontar questões que merecem uma análise mais cuidadosa do advogado. Da mesma forma, pode ajudar na pesquisa jurídica e na elaboração inicial de contratos, pareceres e peças processuais.
Mas existe um cuidado fundamental: a inteligência artificial não deve ser tratada como fonte jurídica. Uma jurisprudência apresentada pela ferramenta precisa ser conferida no tribunal correspondente, assim como a legislação deve ser verificada em fonte oficial. Eu costumo enxergar a IA como um excelente assistente de pesquisa e organização, mas jamais como substituta da conferência feita pelo profissional.
NOVO Notícias — O uso da IA pode tornar o trabalho do advogado mais eficiente e reduzir custos para os clientes? Como isso pode acontecer na prática?
Marcelo Torres — Sem dúvida, pode aumentar a eficiência. Se conseguimos realizar determinadas tarefas em menos tempo, organizar um processo e automatizar atividades repetitivas, o escritório consegue aproveitar melhor seus recursos.
Esse ganho de produtividade pode trazer benefícios para o cliente, seja na redução de determinados custos, seja na maior agilidade do atendimento e na possibilidade de o advogado dedicar mais tempo às questões realmente importantes do caso.
Entretanto, o maior benefício da inteligência artificial na advocacia não deve ser fazer o advogado trabalhar de maneira mais simples, mas permitir que ele trabalhe melhor. O cliente não procura apenas alguém que produza um documento. Ele busca orientação, segurança e estratégia para resolver um problema. Se a tecnologia nos permite gastar menos tempo com tarefas mecânicas e mais tempo pensando no problema do cliente, todos ganham.
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NOVO Notícias — Quais são os principais riscos do uso da IA no Direito, especialmente diante da possibilidade de a ferramenta apresentar informações incorretas ou até inventar decisões e referências jurídicas?
Marcelo Torres — Esse talvez seja o ponto que mais exige atenção. A inteligência artificial é capaz de produzir respostas extremamente convincentes mesmo quando a informação apresentada está errada. Em algumas situações, pode inclusive indicar decisões judiciais, números de processos, autores ou referências que não existem.
Na advocacia, isso é particularmente grave, porque estamos lidando com direitos, patrimônio, liberdade e decisões que podem ter consequências importantes na vida das pessoas.
Por isso, para mim, há uma regra que não pode ser relativizada: o advogado precisa conferir aquilo que a inteligência artificial produz. Não podemos terceirizar para uma ferramenta a responsabilidade profissional que é nossa.
Também existem questões importantes relacionadas ao sigilo profissional e à proteção de dados. O advogado precisa ter muito cuidado com as informações de clientes e processos que insere nessas plataformas. A facilidade proporcionada pela tecnologia não pode nos fazer abandonar deveres éticos que são próprios da profissão.
NOVO Notícias — A IA tende a substituir parte do trabalho dos advogados ou a transformar a profissão? Quais habilidades serão cada vez mais importantes para o advogado nos próximos anos?
Marcelo Torres — Eu acredito muito mais em transformação do que em substituição.
Algumas tarefas que durante décadas fizeram parte da rotina dos escritórios certamente serão automatizadas. Isso já está acontecendo. Mas a advocacia não se resume à produção de petições ou à localização de jurisprudência.
Existe uma dimensão humana muito difícil de substituir. É preciso compreender o problema de uma pessoa e perceber aquilo que, muitas vezes, ela sequer consegue expressar claramente. Também é preciso negociar, construir confiança, definir uma estratégia e tomar decisões diante de situações em que não existe uma resposta jurídica perfeita.
Por isso, acredito que o advogado dos próximos anos precisará combinar o domínio da tecnologia com habilidades que continuam sendo essencialmente humanas, como pensamento crítico, criatividade, comunicação, negociação e sensibilidade. E, claro, conhecimento jurídico. O diferencial estará na capacidade do advogado de saber o que perguntar, o que conferir e, principalmente, o que fazer com aquela informação.
Se eu tivesse que resumir minha percepção sobre esse momento da advocacia em uma frase, seria esta: a inteligência artificial não diminui a importância do advogado; ela aumenta a responsabilidade de quem exerce a profissão.
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