Ordenado sacerdote em 1950, Dom Heitor de Araújo Sales somou 75 anos de sacerdócio e 47 de episcopado - Fotos: Reprodução/Retratos de Dom Heitor
Livro e documentário resgatam a trajetória do arcebispo emérito de Natal, que modernizou a Igreja Católica no Rio Grande do Norte, incentivou ações sociais e, mesmo com o peso do centenário, continua acompanhando a vida pastoral pela tela do celular
Publicado 3 de agosto de 2026 às 18:00
No livro “A República”, o filósofo grego Platão descreve uma conversa de Sócrates com Céfalo, um idoso da aristocracia de Atenas. Indagado sobre o peso dos anos, Céfalo responde: “Se tiverem bom caráter e espírito equilibrado, a velhice não lhes será um fardo insuportável”. É com essa mesma leveza, aliada à temperança, fé, amor, evangelismo e bom humor, que Dom Heitor de Araújo Sales, arcebispo emérito de Natal, celebra seu centenário, completado no último dia 29 de julho.
A vida do religioso, natural de São José de Mipibu, é daquelas que poderiam render um filme ou livro — e, de fato, rendeu. Para marcar a chegada aos 100 anos, sua trajetória foi eternizada na biografia “Na unidade, na paz, na alegria – Dom Heitor 100 anos”, escrita pelo jornalista Adriano de Sousa, e no documentário “Retratos de Dom Heitor, 100 anos”, dirigido por Giovanni Sérgio Rego e Flávia Assaf. As obras foram lançadas nesta semana, durante as festividades de seu aniversário.
As duas produções se entrelaçam para contar a história de um dos nomes mais reverenciados da Igreja Católica no Rio Grande do Norte. Para isso, os autores mergulharam, durante meses, em centenas de fotografias, documentos e nas memórias do próprio biografado. O resultado revela facetas menos conhecidas do arcebispo, como seu perfil vanguardista na condução das atividades eclesiásticas. Outro fato é que, mesmo do alto de um século de vida, Dom Heitor é profundamente ligado à tecnologia e mantém o hábito diário de ler textos bíblicos na tela do celular.
“O acervo dele é muito organizado, como tudo em sua vida”, destaca a cineasta Flávia Assaf. “A pesquisa revela uma pessoa que dedicou sua trajetória à Igreja e a obras sociais de grande importância para o estado e para o Brasil, a exemplo da Campanha da Fraternidade. Ele também foi pioneiro: iniciou os cursos de informática para os seminaristas, ensinou o tema a outros bispos e hoje, aos 100 anos, utiliza o computador diariamente e acompanha [pelo celular] as atividades pastorais por um aplicativo próprio da Igreja.”

Para traçar o perfil do centenário, o documentário reúne mais de 30 depoimentos, incluindo familiares, freiras, padres, bispos, empresários e figuras públicas, como o ex-governador Garibaldi Alves Filho. Segundo a diretora, as falas convergem para uma característica central: o otimismo. “O lema de seu brasão episcopal é ‘Unidade, Paz e Alegria’. Pelos relatos, nota-se claramente que ele baseou toda a sua vida humana e religiosa nesse princípio”, complementa Flávia.
A biografia foi lançada oficialmente no dia 29, na Catedral Metropolitana de Natal, durante a missa em ação de graças pelo centenário. Já o filme teve sessão de estreia no dia 31 e, em breve, integrará um circuito de exibições em cidades como Caicó, Currais Novos e Mossoró. Posteriormente, ficará disponível de forma gratuita no canal da Arquidiocese de Natal no YouTube.
Oriundo de uma família de forte tradição católica — que também deu à Igreja outro grande representante, seu irmão Dom Eugênio de Araújo Sales (1920–2012), ex-arcebispo do Rio de Janeiro —, Dom Heitor também é reconhecido pela ampla modernização que promoveu na Igreja potiguar.
Ele ingressou no Seminário de São Pedro em 1940 e foi ordenado sacerdote em dezembro de 1950. Ao longo de 75 anos de sacerdócio e 47 de episcopado, exerceu diversas funções até ser nomeado, em 1978, bispo da Diocese de Caicó, onde permaneceu até 1993. Naquele ano, assumiu a Arquidiocese de Natal como arcebispo metropolitano, cargo que ocupou até tornar-se emérito, em 2003.

Em sua gestão, implantou um modelo de governo colegiado com a criação dos vicariatos episcopais, fortaleceu as pastorais da Criança e da Comunicação e incentivou a formação do clero. Sob seu pastoreio, foram criadas 15 novas paróquias e ordenados dezenas de novos padres.
“Dom Heitor foi padre, bispo e arcebispo depois do Concílio Vaticano II. Ele modernizou a Igreja e recomendou sua atuação evangelizadora junto à sociedade. Foi ele, por exemplo, quem criou as Irmãs Vigárias, religiosas que ministram sacramentos nas localidades que não têm padres, além de encabeçar outras ações sociais”, comentou Assaf.
O compromisso dele com o desenvolvimento humano também se materializou na fundação do Serviço de Apoio aos Projetos Alternativos Comunitários (Seapac). Há mais de três décadas, a entidade leva tecnologias sociais, agroecologia e políticas públicas para o interior do Rio Grande do Norte, sendo a responsável pela instalação de milhares de cisternas que transformaram a realidade de famílias em diversos municípios do semiárido potiguar.
Dom Heitor também coordenou a reestruturação do Seminário de São Pedro e conduziu um dos episódios mais marcantes da história recente para o catolicismo no Rio Grande do Norte: a beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu pelo Papa João Paulo II, em março de 2000 — etapa fundamental que antecedeu a canonização dos primeiros santos mártires do Brasil, ocorrida em 2017.
O professor universitário Otto Euphrásio de Santana, irmão de Dom Heitor, durante a missa que marcou o centenário do arcebispo, definiu a personalidade do bispo como uma “paz inquieta e propositiva”: “Ele buscou incansavelmente a construção da unidade. Vivenciou a paz como convivência fraterna entre os indivíduos, como relacionamento cooperativo entre as instituições e disponibilidade e respeito à dignidade humana”, completou.
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