Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teve milhares de interações com políticos e autoridades, segundo análise dos dados extraídos de seu celular. | Foto: Reprodução

Política

INVESTIGAÇÃO Celular de Vorcaro registra 71% das interações com ex-integrantes do governo Bolsonaro

Levantamento da revista piauí com o InterSecLab identificou 41,6 mil interações com políticos e autoridades. Os registros incluem conversas sobre regras bancárias e aplicações de recursos de previdências públicas

por: NOVO Notícias

Publicado 20 de outubro de 2026 às 11:25

Uma análise dos dados do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, identificou 41,6 mil interações com políticos e autoridades pelo WhatsApp. Desse total, 71% envolveram ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro, segundo levantamento da revista piauí em parceria com o InterSecLab. No conjunto analisado, 90% das interações foram com representantes da direita, 9% com políticos de centro e 1% com representantes da esquerda.

A Polícia Federal extraiu os dados do aparelho em 18 de novembro de 2025, segundo a reportagem, um dia após a primeira prisão do banqueiro. O material analisado inclui mensagens, áudios, imagens, vídeos e registros de ligações. Ao todo, foram identificados 56 políticos como interlocutores de Vorcaro. Parte das conversas não pôde ser recuperada porque as mensagens eram temporárias ou tinham sido apagadas.

Quem mais trocava mensagens com Vorcaro
Quem mais trocava mensagens com Vorcaro. | Arte: revista piauí

Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações, aparece no topo da lista, com 19,3 mil interações. Depois vêm Bruno Bianco, ex-secretário de Previdência e Trabalho, com 4.782, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil, com 3.967.

Faria afirmou à piauí que conheceu Vorcaro no fim de 2023, quando já estava fora do governo. Bianco também disse que conheceu o banqueiro depois de deixar o serviço público e que os contatos ocorreram durante sua atuação como advogado.

Pagamentos à Record aparecem nas conversas

Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação Social da Presidência, aparece com 1.151 interações. Segundo a reportagem, em abril de 2025, ele enviou a Vorcaro dados para pagamentos de R$ 20 milhões à TV Record e de R$ 3,2 milhões à própria empresa de comunicação.

Em novembro daquele ano, Vorcaro pediu que a emissora destacasse a solidez do Banco Master após o anúncio de investidores privados. Na mesma noite, o Jornal da Record exibiu uma nota sobre o assunto, e Wajngarten encaminhou o vídeo ao banqueiro.

Wajngarten afirmou que atuava na distribuição de notícias e que havia sido contratado pela defesa de Vorcaro para cuidar da comunicação. Questionado sobre a finalidade do pagamento à emissora, não esclareceu o motivo.

Projeto de lei entrou na articulação

A reportagem também descreve conversas sobre uma proposta que tratava das regras para socorrer e liquidar bancos em crise. Em novembro de 2024, o deputado Marcelo Queiroz enviou a Vorcaro uma minuta de projeto relatado por ele. O banqueiro compartilhou o texto com advogados, que sugeriram mudanças relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e à atuação do Banco Central.

Segundo a reportagem, as sugestões tinham pontos em comum com a chamada Emenda Master, associada ao senador Ciro Nogueira. A proposta previa elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC. A Câmara rejeitou o projeto relatado por Queiroz em 14 de outubro, segundo a revista.

Previdências públicas aplicaram R$ 1,87 bilhão

A reportagem também investigou aplicações de recursos da previdência de servidores públicos. Entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, o Banco Master recebeu R$ 1,87 bilhão de 18 regimes próprios de previdência de estados e municípios. Os investimentos foram feitos por meio da compra de letras financeiras sem cobertura do FGC.

Com a liquidação do banco, em novembro de 2025, esses recursos ficaram expostos ao risco de perda, sem a proteção do fundo. O levantamento também identificou 2.636 interações entre Vorcaro e Antonio Rueda, presidente do União Brasil.

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Em 12 de julho de 2024, data em que o instituto de previdência do Amapá aprovou aplicações iniciais de R$ 200 milhões no Master, Rueda enviou a Vorcaro uma mensagem que foi preservada: “Apaga essas mensagens.” Em seguida, foram ativadas mensagens temporárias. Rueda afirmou à piauí que era advogado do banco.

Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes

O levantamento identificou 115 interações com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, mas o conteúdo não estava disponível. O senador não se manifestou à revista.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), aparece com 307 interações. Segundo a reportagem, 94% delas já não estavam disponíveis. Moraes remeteu a resposta a uma petição apresentada no Supremo.

Contatos com nomes da esquerda

Entre os interlocutores classificados pelo levantamento como de esquerda estão os ex-ministros Guido Mantega, Ricardo Lewandowski e José Dirceu. Os contatos identificados com esse grupo representam 1% do total analisado.

Mantega e Lewandowski afirmaram ter mantido relações profissionais com o banco. Dirceu negou ter conversado com Vorcaro, embora a perícia tenha identificado 16 interações e uma chamada de voz. O conteúdo desses registros não pôde ser recuperado.

A revista informou que procurou as 56 pessoas identificadas no levantamento e que 34 responderam até o fechamento da reportagem. Os registros mostram a frequência dos contatos e, em parte dos casos, o conteúdo preservado das conversas. A existência de interações, por si só, não comprova irregularidade nem participação em crime.

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