Papa Leão XIV | Foto: Reprodução
Três semanas após ser submetido a uma intervenção cirúrgica para tratar um câncer de pulmão, o papa Leão XIV, de 71 anos, inicia nesta sexta-feira (6) a viagem internacional mais longa e distante desde o início de seu pontificado. O roteiro contemplará três nações da América Latina, tendo como primeira parada o Uruguai — território que não recebia uma visita oficial de um pontífice desde 1988 —, seguido posteriormente por passagens pela Argentina e pelo Peru.
O itinerário apostólico chegou a ficar sob incerteza em razão da cirurgia realizada em 13 de outubro. De acordo com a chefe de comunicação do Vaticano, María Montserrat Alvarado, o líder da Igreja Católica completou os 14 dias de repouso prescritos pelos médicos e viajou acompanhado por uma equipe de suporte médico durante as 13 horas e meia de voo entre Roma e a capital uruguaia, Montevidéu.
A agenda de três dias no Uruguai prevê audiência formal com o presidente da República, Yamandú Orsi, visita comunitária a um bairro afetado pela violência de grupos criminosos e a realização de uma vigília de oração no Estádio Centenário, em Montevidéu, cujas entradas se esgotaram em 48 horas. No interior uruguaio, o papa celebrará celebrações litúrgicas em Paysandú e Florida. Em Florida, no domingo (8), ele participará dos ritos dedicados à Virgem dos Trinta e Três, padroeira associada à declaração de independência do país em relação ao Império do Brasil, proclamada em 1825.
O desafio pastoral em um país secular
Com população estimada em 3,5 milhões de habitantes, o Uruguai apresenta o cenário mais secular da América Latina — termo que designa um ambiente social e institucional com separação rígida entre Estado e religião, onde as diretrizes eclesiásticas exercem baixa influência nos costumes e na legislação civil. Embora o continente latino-americano concentre cerca de 40% do 1,4 bilhão de católicos do mundo, apenas uma fração minoritária da população uruguaia mantém o hábito de frequentar missas.
Historicamente vanguardista na pauta de direitos individuais, o Uruguai foi o primeiro país do mundo a legalizar o consumo recreativo da maconha, o segundo do continente a descriminalizar o aborto e o terceiro das Américas a validar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Recentemente, a nação aprovou a lei de morte medicamente assistida (eutanásia — procedimento médico que antecipa o fim da vida de pacientes em estado terminal a pedido deles), apesar da resistência institucional da Igreja.
Nos pronunciamentos oficiais previstos, espera-se que Leão XIV reforce a doutrina católica em defesa da dignidade da vida em todas as suas etapas, contrapondo-se à eutanásia e ao aborto.
Perspectivas e próximas paradas
O impacto da passagem papal divide especialistas. Enquanto o ex-dirigente da comissão pontifícia para a América Latina Guzmán Carriquiry considera que o evento pode reavivar a tradição católica local, o pesquisador sobre catolicismo Andrew Chesnut, da Universidade Virginia Commonwealth, avalia que o interesse pontual pelo evento não resultará em aumento duradouro da frequência aos templos, classificando o Uruguai como “praticamente uma causa perdida” no projeto de revitalização religiosa no continente.
Concluída a etapa uruguaia, a comitiva seguirá para a Argentina e o Peru, país onde o papa Leão XIV construiu laços históricos ao atuar durante duas décadas como sacerdote missionário e bispo diocesano.
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