Flávio Bolsonaro e, à direita, Willer Tomaz, em uma foto encontrada pela PF no iCloud do advogado. | Foto: Reprodução
“Segundo a revista piauí, Flávio tinha acesso bancário a uma conta da Alcazar, empresa relacionada à estrutura empresarial da Best Bet. A PF pediu ao STF a abertura de inquérito para apurar se o senador era sócio oculto da casa de apostas. Ele e o advogado Willer Tomaz negam os vínculos apontados
Publicado 21 de outubro de 2026 às 15:35
Documentos consultados pela revista piauí, no Brasil e em Portugal, apontam uma ligação bancária entre o senador Flávio Bolsonaro e a Alcazar, empresa relacionada à estrutura empresarial da casa de apostas Best Bet. Segundo a reportagem, Flávio estava cadastrado como “usuário máster” de uma conta da empresa no Santander. O advogado Willer Tomaz também aparecia nessa condição.
A Polícia Federal investiga suspeitas envolvendo a relação entre o senador e o advogado. Entre as questões apuradas está a hipótese de que Flávio fosse sócio oculto da Best Bet. Os dois negam os vínculos apontados.
Willer Tomaz criou a Cathedral Holdings em janeiro de 2023, com capital de 50 mil euros e sede na Ilha da Madeira, em Portugal. No mês seguinte, foi constituída a Rede Loto Ltda., com capital de R$ 1 milhão, para operar a Best Bet, sediada em São Paulo.
De acordo com a piauí, a Cathedral aparece como controladora da casa de apostas. Em maio de 2023, a Best Bet recebeu autorização da Loterj, a loteria do estado do Rio de Janeiro, durante a gestão do então governador Cláudio Castro (PL). A reportagem também informa que Hazenclever Cançado, presidente da Loterj à época, havia sido indicado ao cargo por Flávio Bolsonaro. A informação já tinha sido publicada pela Folha de S.Paulo.
Naquele período, as regras federais para o mercado de apostas ainda estavam em fase de implantação. Com a licença estadual, a Best Bet chegou a operar em todo o país, embora sua autorização estivesse vinculada ao Rio de Janeiro.
Em maio de 2023, Tomaz também criou a Alcazar Holdings, em Portugal, e a Alcazar Brasil Ltda., em São Paulo. Segundo os documentos consultados pela piauí, há conexões entre a Alcazar e a Cathedral, empresa apontada como controladora da Best Bet.
As duas holdings estrangeiras tinham o mesmo proprietário formal, Willer Tomaz, e o mesmo administrador, Mateo Scudeler. Também estavam registradas no mesmo endereço, uma sala comercial no edifício Marina Club, em Funchal, capital da Ilha da Madeira.
Em visita ao local, em 16 de outubro, a reportagem não encontrou sinais de atividade das empresas no endereço. Segundo a revista, a Cathedral informava ter um funcionário, enquanto a Alcazar não registrava nenhum. A piauí também consultou registros contábeis das duas empresas na Iberinform, especializada em informações comerciais e análise de risco de crédito.
Os documentos mostram mudanças nos valores registrados entre 2024 e 2025. Os valores a receber da Cathedral passaram de 7,8 mil euros para 984 mil euros. No mesmo período, a Alcazar saiu de uma dívida registrada de 8,1 mil euros para 824 mil euros.
Um auditor fiscal da Autoridade Tributária e Aduaneira de Portugal, ouvido sob anonimato pela revista, avaliou que os números poderiam indicar uma relação financeira entre as empresas. “É possível que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente”, afirmou.
O nome de Flávio aparece na apuração por causa do acesso bancário à empresa. Segundo informações do UOL citadas pela piauí, o senador estava cadastrado como “usuário máster” de uma conta da Alcazar no Santander. Tomaz também constava nessa condição. Esse tipo de acesso pode permitir a administração da conta e de outros usuários, conforme as permissões concedidas pelo banco.
A PF apura se a relação entre o senador e o advogado envolvia negócios além da amizade que os dois afirmam manter. A investigação considera os vínculos entre empresas relacionadas a Tomaz, incluindo a Alcazar e a Cathedral, ligada à Best Bet.
A reportagem também menciona um relatório policial que levanta a hipótese de que contas relacionadas ao advogado tenham sido usadas para concentrar, movimentar e redistribuir recursos em favor de terceiros.
Outros elementos citados na apuração incluem viagens em jatinhos, deslocamentos feitos pelos dois e movimentações bancárias. Os valores dessas operações não haviam sido detalhados no material apresentado pela revista.
A hipótese de sociedade oculta na Best Bet, porém, não deve ser confundida com uma conclusão de que Flávio era dono da empresa. Essa suspeita depende do resultado das apurações.
Outra frente da apuração envolve o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Em reportagem publicada em 20 de outubro, o UOL informou que a empresa emitiu notas fiscais que somaram cerca de R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
Segundo o veículo, a maior parte dos pagamentos foi descrita como prestação de serviços de “assessoria jurídica”, sem detalhamento dos trabalhos realizados. A reportagem também apontou uma possível relação bancária entre o escritório do senador e Willer Tomaz. Os dois negam ter compartilhado a titularidade da conta mencionada nas apurações.
O valor faturado pelo escritório, por si só, não comprova irregularidade. Para avaliar os pagamentos, é necessário considerar os serviços prestados, os documentos fiscais e os demais elementos reunidos pelos investigadores.
A atuação nacional da Best Bet foi afetada pelas disputas sobre as regras para o mercado de apostas.
Em julho de 2024, o governo federal determinou que a Loterj interrompesse a operação nacional de empresas autorizadas apenas a atuar no Rio de Janeiro. A loteria estadual recorreu à Justiça e conseguiu uma liminar no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), que permitiu a continuidade da atividade.
O governo federal contestou a decisão e levou a questão ao Supremo Tribunal Federal. Em janeiro de 2025, o ministro André Mendonça decidiu que a Best Bet não poderia operar nacionalmente com base apenas na licença estadual.
A empresa ficou restrita ao Rio de Janeiro e encerrou as atividades em meados de 2025, segundo a piauí.
Outro episódio citado pela revista ocorreu em maio daquele ano. No dia 22, uma funcionária de Tomaz enviou ao Santander um pedido para retirar Flávio da condição de “usuário máster” da conta da Alcazar.
Naquele período, o senador estava em Portugal com o advogado. No dia seguinte, os dois viajaram com suas famílias de Cascais, em Portugal, para Nice, na França, em um jato contratado em nome da Cathedral, de acordo com a reportagem.
O pedido de retirada do acesso bancário não esclarecia o motivo da mudança.
Procurado pela piauí, Flávio não respondeu às perguntas sobre quando passou a ter vínculo bancário com Willer Tomaz por meio da Alcazar. A revista também perguntou se o senador era sócio da Best Bet ou se tinha acesso aos negócios da Cathedral.
Em manifestação anterior, após a divulgação da existência da conta, Flávio afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.
Tomaz também negou as informações. Segundo ele, a conta bancária “nunca lhe pertenceu” e ele “jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma”.
Em nota enviada à piauí em 21 de outubro, o advogado classificou as informações como “ilações” e “acusações falsas”. Também contestou a descrição das empresas como estruturas de fachada e afirmou que Flávio “jamais foi sócio da Best Bet, direta ou indiretamente”.
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Tomaz negou ainda que o senador tivesse sido “usuário máster” da Alcazar no Santander. Segundo o advogado, o e-mail citado pela revista demonstraria que a empresa não tinha um usuário máster cadastrado.
A piauí, por sua vez, afirmou que o documento era uma solicitação para desvincular Flávio dessa condição. A revista também informou que a referência ao acesso bancário constava no relatório da Polícia Federal citado na reportagem.
O advogado declarou que a revista responde judicialmente pela divulgação de informações que considera falsas e ameaçou acionar novamente o veículo e os responsáveis pela reprodução do conteúdo. Também afirmou que a PF instaurou um inquérito para investigar policiais suspeitos de envolvimento em vazamentos de informações sigilosas.
Até a publicação das reportagens citadas, Flávio e Tomaz negavam os vínculos apontados. A existência de registros bancários e empresariais é um dos elementos da apuração, mas não basta, isoladamente, para comprovar que o senador era proprietário da Best Bet.
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