Festa do Boi: Empreleite aposta no queijo artesanal para estimular sucessão rural

Últimas

Produção Festa do Boi: Empreleite aposta no queijo artesanal para estimular sucessão rural

Entidade reúne pequenos produtores e defende valorização do queijo artesanal potiguar como estratégia para fortalecer negócios rurais e ampliar perspectivas para as novas gerações

por: NOVO Notícias

Publicado 5 de outubro de 2026 às 12:48

Valorizar o queijo artesanal como atividade capaz de fortalecer os negócios rurais e estimular a sucessão familiar. Esse é um dos objetivos da Associação dos Empreendedores do Leite do Rio Grande do Norte (Empreleite), que estará presente na 64ª Festa do Boi, realizada a partir desta sexta-feira (9), no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim. Durante o evento, a entidade vai expor queijos premiados e outros derivados do leite, além de produtos como doces, mel e café, do terroir potiguar.

Por meio de orientação técnica, acompanhamento especializado e apoio à regularização das queijeiras artesanais, a associação busca criar condições para que pequenos produtores deixem de atuar apenas na comercialização do leite in natura e possam desenvolver produtos de maior valor agregado. Fundada em 2022, a Empreleite reúne atualmente 12 associados, que processam diariamente cerca de dois mil litros de leite e atuam em diferentes regiões do estado, do sertão ao litoral.

Para o presidente da entidade, Marinho de Sousa, ao permitir que o produtor atue em outras etapas da cadeia produtiva e diversifique as fontes de receita, a Empreleite também contribui para ampliar as perspectivas das novas gerações no campo. “Sucessão rural não é só herdar a propriedade. É preciso criar condições para que o jovem tenha interesse, espaço para participar das decisões, construa uma relação próxima com o negócio e encontre ali uma possibilidade real de futuro”, destaca.

O cenário, segundo ele, está relacionado a um desafio nacional: o envelhecimento da população rural. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, nos últimos 14 anos, a participação dos trabalhadores rurais com 55 anos ou mais passou de 19,3%, em 2012, para 23,86% no primeiro trimestre de 2026. No sentido inverso, a parcela de jovens de 16 a 22 anos caiu de 11,5% para 8,93% no mesmo período. Atualmente, dos 7,7 milhões de ocupados no setor, pouco mais de 688 mil têm entre 16 e 22 anos.

Para o presidente da entidade, Marinho de Sousa, ao permitir que o produtor atue em outras etapas da cadeia produtiva e diversifique as fontes de receita

Campo como oportunidade de futuro

Um exemplo dessa nova geração é o jovem Robeilson da Cunha Silva Filho, associado da Empreleite que, aos 17 anos, já comanda sua própria marca: a Laticínios Cuquinha. Natural de Bom Jesus e filho da produtora rural Dafne Araújo, Cuquinha, como também é conhecido, acompanha a atividade leiteira da família desde a infância. Hoje, ele compra o leite fornecido pela mãe e processa até 100 litros por dia. A partir da matéria-prima, produz queijos de coalho especiais, além de bebidas lácteas, iogurtes e doces de leite.

“Eu percebi que, fazendo o queijo, a renda é maior do que vendendo o leite. Foi aí que comecei a me interessar mais e a desenvolver meus próprios produtos. Hoje tenho meu negócio, compro o leite da minha mãe e sigo buscando conhecimento para crescer cada vez mais. Quero continuar trabalhando com queijo e acredito que o agro dá certo para os jovens. É preciso ter vontade de trabalhar e buscar conhecimento”, enfatiza Cuquinha.

Na Fazenda Riacho do Meio, em Serra Caiada, os irmãos Maria Augusta Rocha, de 25 anos, e Francisco Ronald Rocha, de 19, já dividem com os pais a condução da propriedade. A família começou a produzir leite em 2017 e passou a fabricar queijos em 2023, depois de perder o principal comprador do leite. Com apoio da Empreleite, a família passou a desenvolver derivados e hoje processa cerca de 100 litros de leite por dia.

“A gente foi criado nesse meio, sempre viveu nesse ambiente de fazenda. É uma parte de quem a gente é. E era um desejo do nosso pai criar gado de leite, o que acabou se tornando também um desejo nosso. Então fazer isso é meio que a realização de um sonho”, relata Maria Augusta, acrescentando que, além do queijos de coalho, a família ainda produz manteiga e doce de leite.

A valorização do queijo artesanal potiguar também vem sendo acompanhada por iniciativas de regulamentação e abertura de novos mercados. De acordo com a pesquisadora e doutoranda em Geografia pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Marília Medeiros Soares, esse movimento tem contribuído para mudar a percepção sobre a atividade, que passa a ser vista não apenas como tradição familiar ou alternativa de subsistência, mas também como possibilidade de geração de renda e empreendedorismo.

“À medida que o queijo artesanal ganha visibilidade, reconhecimento e valor agregado, o ofício do produtor também pode passar a ser percebido de outra maneira pelos próprios membros da família, inclusive pelos mais jovens. A diversificação dos produtos, a abertura de novos mercados e a valorização da atividade são importantes nesse sentido”, afirma Marília, que conduz o projeto de pesquisa “A valorização territorial do queijo artesanal e sua influência na reprodução social no Rio Grande do Norte: um estudo no Seridó e Agreste Potiguar”.

Essas e outras histórias de empreendedorismo e inovação no campo estarão expostas durante a Festa do Boi, entre os dias 9 e 17 deste mês, na loja colaborativa da Empreleite, localizada na Rua Alecrim (em frente ao Restaurante Targino). Em 2025, a associação movimentou R$ 200 mil em negócios, entre a venda de produtos e a comercialização de animais. Para este ano, a expectativa é movimentar R$ 240 mil, um crescimento de 20% em relação ao ano passado.

>> Receba notícias do NOVO em tempo real pelo WhatsApp

Tags