Como a rotina de trabalho home office pode afetar a saúde do corpo?
Da sala de casa ao posto de trabalho, a rotina profissional mudou muito desde a pandemia de COVID-19. Em 2024, quase 6,6 milhões de pessoas trabalhavam no modelo home office, no próprio domicílio, o equivalente a 7,9% dos trabalhadores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) divulgados em 2025.
O home office, portanto, passou a fazer parte das expectativas de longo prazo sobre o trabalho. A pesquisa Tendências em Carreiras, realizada pela Serasa Experian em dezembro de 2025 com 3.828 brasileiros e divulgada em fevereiro de 2026, mostrou que 37,3% dos entrevistados consideram que o trabalho híbrido ou remoto será o principal fator de impacto em suas carreiras até 2030. O levantamento também apontou que 47,4% priorizam a qualidade de vida e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional ao pensar no futuro da carreira.
No entanto, a mudança também trouxe novos desafios. Se, por um lado, o home office reduziu deslocamentos e pode facilitar a conciliação entre trabalho e vida pessoal, por outro, fez com que espaços originalmente destinados ao descanso passassem a ser usados durante horas para o expediente. A adaptação da casa e da rotina profissional também pode afetar a saúde física e mental, especialmente entre quem permanece por longos períodos sentado diante do computador, com poucas pausas e pouca movimentação ao longo do dia.
Mesa improvisada, notebook sem suporte, permanência prolongada sentado em frente a telas e poucas pausas podem aumentar a exposição a fatores associados a dores musculoesqueléticas. Isso sem nem mesmo considerar os casos em que o trabalho é realizado em locais não preparados, como camas ou sofás. A revisão sistemática Dor musculoesquelética e fatores de risco em trabalhadores de escritório versus teletrabalhadores: uma revisão sistemática, publicada em 2025 na revista científica Journal of Occupational Rehabilitation, que analisou 17 estudos sobre trabalhadores presenciais e remotos, identificou condições inadequadas nos espaços de trabalho em casa, uso de equipamentos como notebooks e fatores psicossociais e organizacionais entre os fatores associados ao aumento de sintomas e dores musculoesqueléticas em teletrabalhadores.
Já outro estudo, Sintomas musculoesqueléticos e fatores de risco entre trabalhadores em home office durante a pandemia de COVID-19: uma revisão sistemática, publicado no International Journal of Occupational Safety and Ergonomics, reuniu seis análises sobre dor relacionada ao trabalho em casa durante a pandemia. As pesquisas relataram prevalências de até 76,9% para dor no pescoço, 74,1% para dor lombar e 72,9% para dor nos ombros. Os números variam conforme a população e o método utilizados e não representam todos os trabalhadores remotos.
Alguns pontos merecem atenção:
A organização também alcança a saúde mental. Em documento conjunto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que o home office pode estar associado a riscos psicossociais, como isolamento, jornadas prolongadas, dificuldade de separar trabalho e vida pessoal e dificuldade de se desconectar do expediente. Esses fatores podem ser agravados quando não há uma organização clara dos horários e quando o ambiente doméstico não oferece um espaço adequado e separado para o trabalho.
Em casos de dores que surgem ou persistem durante a rotina de trabalho remoto, a avaliação profissional ajuda a identificar a origem do problema e definir a conduta correta para cada caso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda educação, atividade física e abordagens físicas e psicológicas no manejo da dor lombar crônica primária para quadros desse tipo, além de apontar ajustes ergonômicos no trabalho entre medidas que podem ajudar no controle dos sintomas.
Nesse processo, o tratamento fisioterapêutico avalia aspectos como movimento, postura, força e capacidade funcional para identificar alterações que possam estar relacionadas aos sintomas. Esses profissionais, formados em uma faculdade de fisioterapia, estudam a relação entre movimento, corpo e atividade e podem aplicar esse conhecimento na avaliação e no tratamento de alterações relacionadas ao trabalho remoto. Em condições musculoesqueléticas, a fisioterapia pode contribuir para a recuperação da mobilidade, da força e da capacidade funcional, de acordo com as necessidades identificadas na avaliação individual.
Assim, a ergonomia pode passar a fazer parte da rotina profissional dentro de casa. Vale lembrar que, diante de dor persistente, formigamento, perda de força ou limitação de movimento, a orientação profissional deve ser sempre procurada.
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