Vendas de canetas emagracedoras dispara nas farmácias do RN - Fotos: Freepik

Cotidiano

Saúde Vendas de canetas emagracedoras dispara nas farmácias do RN

Dados da Anvisa registram a venda de 54,6 mil caixas entre janeiro e junho deste ano; especialista alerta que uso exige avaliação individualizada e acompanhamento constante para evitar complicações e garantir a eficácia do tratamento

por: NOVO Notícias

Publicado 10 de agosto de 2026 às 15:02

As canetas emagrecedoras estão entre os medicamentos controlados mais prescritos no Rio Grande do Norte. Dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), disponibilizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mostram que as farmácias potiguares venderam 54,6 mil caixas entre janeiro e junho deste ano.

O volume representa uma média de 301,8 unidades comercializadas por dia, o equivalente a cerca de 12,5 caixas vendidas por hora em todo o estado. Os dados analisados pelo NOVO utilizaram apenas canetas que têm como composto principal semaglutida e tirzepatida.
Os dois princípios ativos comercializados no estado têm indicação aprovada para o tratamento do diabetes tipo 2 e, em determinadas apresentações, também para obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades.

De acordo com os números, a média de idade dos compradores é de 46 anos. Pelo menos 57% das vendas são para mulheres, e 50% das vendas foram registradas em Natal.

A semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como o Ozempic, atua aumentando a sensação de saciedade, retardando o esvaziamento do estômago e auxiliando no controle da glicemia. Já a tirzepatida, utilizada em medicamentos como o Mounjaro, atua simultaneamente sobre os receptores dos hormônios GIP e GLP-1, mecanismo que contribui para o controle dos níveis de glicose e do apetite.

De acordo com os dados, a semaglutida concentrou a maior parte das vendas no primeiro semestre. Foram 30,4 mil caixas (com quatro canetas) comercializadas. Já a tirzepatida respondeu por 24,1 mil caixas das vendas entre janeiro e junho.

As informações fazem parte do SNGPC, sistema que acompanha a comercialização de medicamentos sujeitos a controle especial mediante retenção de receita médica. Os dados de 2026 são os primeiros disponibilizados pela Anvisa após a retomada da divulgação pública.

Entre 2022 e 2025, a plataforma permaneceu sem atualização. Permanecem disponíveis no Portal de Dados Abertos apenas as séries históricas de 2014 a 2021. Nesse período, as planilhas não registram comercialização de semaglutida ou tirzepatida no Rio Grande do Norte, segundo levantamento realizado sobre a base de dados.

No mês passado, a Anvisa ampliou o número de medicamentos registrados no país para essas indicações ao aprovar cinco novas canetas à base de semaglutida. Com a decisão, o Brasil passou a contar com 21 medicamentos injetáveis e orais registrados para o tratamento do diabetes tipo 2, da obesidade ou de ambas as condições.

Apesar do avanço nas vendas, nem todas as pessoas podem utilizar as canetas emagrecedoras, alerta a médica endocrinologista Raissa Castro. Segundo ela, esses medicamentos possuem indicações bem definidas e só podem ser prescritos após avaliação clínica individualizada. “De forma geral, são indicados para pessoas com obesidade ou para indivíduos com sobrepeso associado a doenças relacionadas ao excesso de peso, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono ou alterações do colesterol”, diz.

A endocrinologista alerta ainda para o uso do termo “canetas emagrecedoras”. “Embora tenha se popularizado na mídia, o correto é chamá-las de medicamentos injetáveis destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes mellitus”, justifica. De acordo com ela, existem contraindicações e situações que exigem maior cautela. “Por isso, a avaliação médica é indispensável para que o tratamento seja seguro e eficaz”, afirmou.

Um levantamento realizado na plataforma VigiMed, da Anvisa, referente ao período de 1º de janeiro a 14 de junho de 2026, revelou 353 notificações de eventos adversos relacionados às canetas emagrecedoras no Brasil. Não houve registros no Rio Grande do Norte. O Mounjaro respondeu por 296 dos efeitos adversos registrados. Os principais problemas relatados foram diarreia, náuseas, vômito e dor abdominal.

BATE-PAPO — Médica endocrinologista Raissa Castro

NOVO – As “canetas emagrecedoras” são a solução para a obesidade?
Raissa Castro – Esses medicamentos representam um dos maiores avanços da medicina no tratamento da obesidade nas últimas décadas. No entanto, não devem ser encarados como uma solução isolada. A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, que exige uma abordagem individualizada. Quando bem indicados, esses medicamentos atuam como uma importante ferramenta terapêutica, mas os melhores resultados são alcançados quando fazem parte de um plano de tratamento que inclui alimentação adequada, atividade física, sono de qualidade, manejo do estresse e acompanhamento por uma equipe multiprofissional.

Médica endocrinologista Raissa Castro

NOVO – Como funcionam?
Raissa Castro – A maior parte desses medicamentos age mimetizando hormônios naturalmente produzidos pelo intestino, como o GLP-1 e, em alguns casos, também o GIP. Esses hormônios participam da regulação do apetite, promovendo maior sensação de saciedade, redução da fome, retardando o esvaziamento gástrico e melhorando o controle da glicemia. Como consequência, ocorre uma redução espontânea da ingestão calórica, favorecendo a perda de peso e a melhora da saúde metabólica. É importante destacar que o efeito vai além do emagrecimento. Estudos demonstram benefícios na redução da gordura visceral, no controle do diabetes e na diminuição do risco cardiovascular em pacientes selecionados.

NOVO – Quais os riscos?
Raissa Castro – Como qualquer tratamento médico, esses medicamentos podem apresentar efeitos adversos. Os mais comuns são náuseas, sensação de estômago cheio, vômitos, diarreia ou constipação, principalmente no início do tratamento e durante o ajuste gradual das doses. Também pode haver aumento do risco de doença da vesícula biliar, especialmente quando ocorre perda de peso rápida. Além disso, se o emagrecimento não for acompanhado de ingestão adequada de proteínas e prática regular de exercícios de força, pode haver perda de massa muscular. A boa notícia é que, quando existe indicação correta, acompanhamento médico e orientação nutricional adequada, a maioria desses efeitos pode ser prevenida ou manejada de forma segura.

NOVO – Para quem é indicado o uso das canetas?
Raissa Castro – O tratamento é destinado principalmente às pessoas que apresentam indicação clínica para terapia medicamentosa da obesidade. Entretanto, é fundamental compreender que o medicamento não substitui hábitos saudáveis. Ele facilita o processo de perda de peso, mas não faz o trabalho sozinho. Para preservar a massa muscular, manter os resultados a longo prazo e promover melhora global da saúde, é essencial associar uma alimentação equilibrada, ingestão adequada de proteínas, prática regular de atividade física — especialmente exercícios de força —, sono de qualidade e acompanhamento multiprofissional. Esse conjunto de medidas é o que permite um tratamento realmente eficaz e sustentável.

NOVO – Quais os efeitos desses medicamentos a longo prazo?
Raissa Castro – As evidências científicas disponíveis demonstram que esses medicamentos apresentam eficácia e segurança para uso prolongado quando utilizados de forma adequada e sob acompanhamento médico. Além da perda de peso, diversos estudos mostram benefícios como melhora do controle glicêmico, redução da gordura visceral, melhora da pressão arterial, do perfil lipídico e redução do risco de eventos cardiovasculares em pacientes com indicação. Também é importante lembrar que a obesidade é uma doença crônica. Assim como acontece na hipertensão e no diabetes, muitos pacientes podem necessitar de tratamento contínuo para manter os benefícios alcançados. Mais importante do que discutir por quanto tempo o medicamento será utilizado é garantir que ele esteja inserido em um plano terapêutico individualizado, baseado em evidências científicas e acompanhado por uma equipe capacitada.

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