Operação Mederi: vídeo detalha suposta divisão de propina para Allyson Bezerra; VEJA
Uma gravação captada pela Polícia Federal que detalha a atuação de um suposto esquema de fraudes em licitações e desvio de verbas públicas da saúde em Mossoró foi divulgada nesta quinta-feira (24) pelo jornal Diário do RN. O material em vídeo integra o inquérito da Operação Mederi, deflagrada em janeiro deste ano, e registra o diálogo — conhecido como “A Matemática de Mossoró” — entre os empresários Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, sócios da Dismed Distribuidora de Medicamentos e alvos centrais da operação policial.
Nas imagens, os investigados discutem a divisão de recursos obtidos por meio de contratações públicas de insumos e medicamentos. De acordo com o relatório da Polícia Federal, os interlocutores também são citados em escutas telefônicas e interceptações autorizadas pela Justiça que flagraram gestores da distribuidora discutindo uma partilha de valores obtidos supostamente nas compras públicas da saúde de Mossoró.
Conforme os relatórios policiais, o diálogo apelidado pelos agentes de “Matemática de Mossoró” indica que 15% do valor dos contratos eram supostamente direcionados ao ex-prefeito Allyson Bezerra (que hoje concorre ao Governo do Estado) e 10% a uma mulher citada inicialmente apenas como “Fátima”. Com o avanço das diligências, a PF identificou a intermediária como uma servidora comissionada da Prefeitura de Mossoró.
De acordo com a decisão que embasou a Operação Mederi, o diálogo da “Matemática de Mossoró” foi gravado em 13 de maio de 2025. Na ocasião, Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares exemplificam o funcionamento do esquema a partir de uma ordem de compra de R$ 400 mil.
Segundo a dinâmica descrita pelos interlocutores, a empresa entregaria apenas R$ 200 mil em medicamentos, reteria percentuais de lucro e destinaria R$ 100 mil para agentes públicos. Na gravação, Oseas afirma: “Dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil a Allyson e a Fátima, que é dez por cento de Fátima e quinze por cento de Allyson. Só ficou trinta mil pra a empresa”. Em outro arquivo da mesma data, os alvos voltam a tratar da divisão citando repasses de “quinze do homem e dez disso aí”, o que a autoridade policial associa a Allyson Leandro Bezerra Silva.

A corporação destacou que o grau das evidências varia conforme a atribuição de cada citado. No caso dos sócios da empresa, a apuração aponta confissão direta registrada nos áudios. Em relação a Allyson Bezerra, consta menções nominais repetidas quanto ao recebimento de porcentagens e a planos para financiamento de campanhas eleitorais.
O relatório policial aponta ainda que a Dismed foi a principal beneficiária de verbas da Prefeitura de Mossoró, acumulando repasses superiores a R$ 13,5 milhões entre 2021 e 2025. Segundo a investigação, a participação atribuída ao chefe do Executivo envolvia assegurar a manutenção dos vínculos contratuais e autorizar a quitação dos valores mesmo diante do não fornecimento dos medicamentos à rede pública. Os investigadores anexaram registros de proximidade social entre o prefeito e o empresário Oseas Monthalggan em redes sociais, além de falas gravadas em que os suspeitos comentam a postura cautelosa do gestor municipal para evitar a exposição do esquema.
O NOVO procurou a campanha do candidato Allyson Bezerra, mas não houve resposta até o momento. O espaço segue aberto.
VEJA A DECISÃO DA OPERAÇÃO MEDERI:
Em outro trecho interceptado, registrado sob o arquivo Rec1_20250514_091045, José Moabe afirma a Oseas Monthalggan: “Você chegando na campanha ou na campanha de Allyson, você chegou na campanha de Allyson independente de qualquer coisa”. Conforme a PF, a menção indica a análise sobre a destinação e o uso das quantias em benefício das campanhas dos gestores municipais.
Os investigadores anexaram aos autos registros que evidenciam a proximidade política e pessoal entre o chefe do Executivo e o sócio da distribuidora, como uma publicação feita no Instagram em 11 de abril de 2024, na qual ambos aparecem juntos em tom cordial. O documento policial ressalta que, embora relações de proximidade não configurem ilicitude por si sós, a circunstância ganha relevância diante do fato de a Dismed figurar como a principal fornecedora do município no setor, tendo recebido mais de R$ 13,5 milhões dos cofres municipais entre os anos de 2021 e 2025.
A tese preliminar apresentada no relatório investigativo sugere que o papel atribuído ao prefeito na engrenagem descrita consistiria na garantia da continuidade dos contratos e na liberação de pagamentos por lotes de medicamentos que, conforme os diálogos gravados, não teriam sido integralmente entregues à rede pública. Segundo a polícia, pela posição de autoridade máxima da administração local, a anuência do mandatário seria elemento-chave para a viabilidade do modelo operacional investigado, seja por intervenção administrativa direta ou por ausência deliberada de fiscalização dos serviços executados.
No dia em que a Operação Mederi foi deflagrada, em 27 de janeiro, agentes da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) recolheram R$ 251.502 em espécie — com parte do valor encontrada armazenada em caixas de papelão e isopor na residência de Oseias Monthalgan. Todo o material apreendido agora passa por perícia em Natal, incluindo, além do dinheiro vivo, quatro veículos, 33 celulares, 34 mídias digitais (como computadores e HDs) e 114 documentos que detalham as relações entre as empresas investigadas e as prefeituras envolvidas.
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