Ao lançar o Pix, em 2020, o Banco Central teria prejudicado os planos de negócios da Meta, big tech que anunciou, em junho do mesmo ano, o lançamento da funcionalidade Whatsapp Pay no Brasil. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

PIX - Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Economia

Disputa Modelo do Pix desafia controle financeiro dos EUA sobre o Brasil

Estudos indicam que barreira comercial de 25% visa preservar influência global do dólar e capacidade de aplicar sanções financeiras internacionais

por: NOVO Notícias

Publicado 21 de julho de 2026 às 11:47

A imposição de uma tarifa de 25% pelo governo dos Estados Unidos sobre os produtos brasileiros decorre de uma estratégia geopolítica para manter a influência sobre a infraestrutura global de pagamentos eletrônicos, e não estritamente de uma concorrência comercial. Economistas e especialistas em relações internacionais apontam o avanço do Pix como um limitador da capacidade de Washington de aplicar sanções e controlar fluxos financeiros.

De acordo com o professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, a reação do governo norte-americano, presidido por Donald Trump, visa conter a perda de controle sobre o sistema financeiro do Brasil. Silva pondera que o Pix incluiu financeiramente a população, o que impulsionou o mercado de cartões de marcas americanas no Brasil, setor que movimentou R$ 4,5 trilhões em 2025 (alta de 10,1%, segundo a Abecs).

O economista aponta que, por possuírem superávit comercial com o Brasil, as taxas alfandegárias podem prejudicar economicamente os próprios EUA a curto prazo, priorizando-se o exercício de poder político por meio de sanções.

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, ressalta que o Pix reduziu a dependência do dólar em transações bilaterais de comércio exterior, diminuindo a receita de senhoriagem de Washington.

Carmona explica que sistemas de pagamento independentes criam barreiras contra sanções econômicas unilaterais dos EUA, a exemplo do ocorrido nos bloqueios financeiros contra Cuba ou de sanções contra indivíduos e instituições, que dependem da submissão de redes americanas de cartões. Ele destaca também que o Banco Central do Brasil já firmou acordos de cooperação técnica com 47 países para a implementação de sistemas semelhantes de transferência instantânea de recursos.

A tendência de descentralização financeira e busca por autonomia não é exclusiva do mercado brasileiro. Em análise publicada antes do anúncio das tarifas contra o Brasil, a revista britânica The Economist apontou que o Pix e iniciativas da União Europeia (UE) ameaçam a primazia financeira americana, podendo reduzir as margens operacionais de empresas de cartões dos EUA, que superam 50%. A UE anunciou o projeto-piloto do “Euro Digital” para 2027, com o objetivo declarado pela presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, de assegurar a soberania interna e reduzir a dependência de redes de pagamento estrangeiras.

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