Jorge Bodanzky participará dia 25 da exposição “Herdeiros de Zumbi, um álbum de família de Sibaúma por Jorge Bodanzky, 1969". Foto: Arquivo pessoal
Considerado hoje um dos mais importantes documentaristas e fotógrafos brasileiros, Jorge Bodanzky retorna ao RN para participar de exibição de filme, debate e de uma exposição com as fotos do quilombo de Sibaúma que ele fez na década de 1960
Publicado 22 de julho de 2026 às 07:00
Há mais de 50 anos, uma equipe da revista Realidade — a mais importante publicação jornalística do Brasil na época — veio ao Rio Grande do Norte para uma reportagem. O fotógrafo destacado para a pauta foi Jorge Bodanzky. A ideia era mostrar a vida em um quilombo na praia de Sibaúma, localizada a 86 km de Natal. Não é difícil imaginar o quão remota era a localidade naquela época.
A reportagem não causou tanta repercussão. Mas as imagens feitas por ele reverberam até hoje e são prova de que a comunidade reside no lugar há mais de seis décadas.
Passados 57 anos, Bodanzky — hoje considerado um dos mais importantes documentaristas e fotógrafos brasileiros — está retornando ao Rio Grande do Norte esta semana para participar de programação cujo ponto alto será uma exposição na praia de Sibaúma com as fotos que ele fez do quilombo na década de 1960 (veja mais informações após a entrevista).
O evento é resultado de uma colaboração entre o Grupo de Pesquisa Cultura, Identidade e Representações Simbólicas (CIRS/UFRN), em parceria com a Associação de Remanescentes Quilombolas da Praia de Sibaúma e o Instituto Moreira Salles (IMS).
Na entrevista a seguir, ele conta os detalhes sobre a reportagem, fala sobre sua formação, as expectativas com esse retorno e também sobre o fazer fotográfico.
A conversa foi possível graças à intermediação da produtora e historiadora Flávia Assaf, que está colaborando com o evento e é amiga do fotógrafo. A entrevista foi feita pela fotógrafa, professora e doutora em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN), Elisa Elsie, a pedido do NOVO, por sua pesquisa na área da fotografia e por conhecer a obra de Bodanzky.
Elisa Elsie: O trabalho em Sibaúma talvez tenha sido o primeiro registro de uma comunidade quilombola no Brasil…
Jorge Bodanzky: No Embu das Artes em São Paulo, havia um grupo também, mas naquela época não se intitulava de Quilombo. Era um teatro negro. Eu fotografei e filmei quando era professor da ECA em 1968, um pouquinho antes da Sibaúma. Mas eu não sei se esse grupo existe mais. Chamava Solano Trindade. Era um grupo teatral de artistas. Eu não sei se era considerado um quilombo ou não. Mas inclusive algumas fotos desse grupo estão na minha exposição no Instituto Moreira Salles. Sibaúma é um caso interessante porque eu trabalhava como freelancer na Revista Realidade. Ia fazendo as matérias que mandavam. Me chamavam e diziam: ‘Você vai acompanhar o repórter tal’. O Talvani Guedes era o repórter. Não o conhecia, fiquei conhecendo lá na hora. Ele era de Natal, já faleceu. Ele trouxe essa história de Sibaúma, uma história interessante. A gente fez a matéria, a matéria foi publicada na Realidade. É interessante o texto porque tem tudo a ver com o que está acontecendo agora. O título é Os Herdeiros de Zumbi. Na Realidade a gente fotografava muito, eles eram muito generosos com o filme de slide, que era caro na época. Só ficavam com aquilo que era publicado, o que não era, ficava com a gente, eu guardava tudo isso. Na época, a matéria não teve grande interesse. Uma das matérias que eu fiz que menos repercutiu, até tinha quase esquecido disso. Até recentemente, quando a professora Julie (Cavignac) me procurou, dizendo que estava com a revista Realidade nas mãos. Alguém mostrou lá na comunidade, eles ficaram loucos para conhecer e me procuraram. Ou seja, Julie me procurou em função dessa demanda deles. Eu falei: ‘Eu tenho 200 fotos dessa matéria’. Mas todo meu arquivo analógico foi para o Instituto Moreira Salles (IMS) há um tempo. Aí ficaram alucinados. A gente combinou que inicialmente seriam 20 fotos. Eles escolheram as fotos, foram digitalizadas e também ampliadas. O Instituto ficou muito feliz disso ter acontecido: “Para nós é muito importante que não seja um arquivo morto, que seja um arquivo que tenha uma participação social”. Esse é o caso ideal, né? Ficaram (o IMS) muito contentes, fizeram tudo sem cobrar nada, ampliaram as fotos, imprimiram em lona. Essa foi uma uma conversa que a gente teve, porque não sabiam no primeiro momento onde essas fotos seriam expostas. Foi sugestão deles, do curador do IMS, fazer em lona, de boa qualidade, porque aí você enrola e leva para onde você quiser e a lona é mais resistente, não arranha. Porque para refazer as fotos em outros materiais depois seria muito caro, né? Esse material já está na mão deles. Já estão trabalhando no espaço lá em Sibaúma, onde isso vai ser exposto.

[EE] E como você pretende trabalhar essa sua volta ao lugar?
[JB] A minha ideia é fazer um registro em Sibaúma. Eu vou gravar em vídeo. Atualmente eu trabalho só com celular. Eu vou gravar entrevistas com as pessoas que têm alguma relação com essas essas fotos: eles próprios, ou pais, primos. Quem e o que puderem me contar de cada foto. Eu vou guardar esse registro e depois a gente pode editar, esse material pode acompanhar futuras exposições ou mesmo ser acrescentado nessa primeira exposição. Tem um produtor que gostou da história. A ideia é fazer um um documentário maior sobre essa história toda. Mas é só uma ideia por enquanto, mas o pessoal tá muito entusiasmado.
[EE] Quase 60 anos depois, a gente vai ter acesso a esse acervo que surgiu de um encontro seu com a comunidade. Como você avalia o fato das suas fotografias terem permanecido na história, na memória?
[JB] Eu não sei quantas pessoas tinham na comunidade na época. Era uma vila pequena de pescadores na beira da praia, uma característica única, porque todos os quilombos foram empurrados para dentro do país. As terras valorizaram muito, então eu não sei se existe um outro quilombo de beira de praia. Talvez esse seja um dos únicos. Mas a gente ficou dois ou três dias, não dormindo lá, mas hospedados perto. O Talvani entrevistou as pessoas todas, eu fotografei quase todo mundo. Nessas 200 fotos eu tenho quase certeza que fotografei 80 ou 90% das pessoas que estavam lá, morando lá naquele momento. Uma vida muito simples. Você vê pelas fotos, casinha de palha, telhado de palha, o chão é na areia mesmo, o chão de terra e eu não me lembro exatamente o tamanho, mas era uma pequena vila de pescadores. Todos muito, muito ciosos da sua história, já naquele momento.

[EE] A sua inserção na revista e nas pautas foi logo depois da sua chegada de uma temporada na Europa. Você veio influenciado por esse olhar de contatos e referências estrangeiras? Como foi a sua aproximação com as pessoas?
[JB] A minha formação foi na Universidade de Brasília. Eu entrei em 1964 para Arquitetura, mas lá na universidade tinha um projeto muito interessante do Darcy Ribeiro, do Anísio Teixeira, que era uma coisa um pouco no estilo do campus americano. Você fazia dois anos básicos, onde você tinha a liberdade de fazer qualquer matéria em qualquer lugar. A universidade estava recém-inaugurada — ela foi inaugurada em 1963. Eu sou da segunda turma, entrei lá em 64, no ano do golpe militar. Entrei e dois meses depois veio o golpe. Havia uma resistência muito grande por parte dos professores e alunos de manter o projeto original. O que foi muito difícil. Para os militares, ter uma universidade desafiadora ao lado do Congresso, era uma coisa que eles não iriam tolerar de jeito nenhum. Então, foi violento o negócio. Teve prisão, teve morte e, em outubro de 65, finalmente, a situação estava absolutamente inviável. Os professores se reuniram e houve uma demissão coletiva, achando que isso ia chamar atenção do mundo. Só que ninguém se importou. Os professores foram demitidos, a universidade foi fechada e, no ano seguinte, ela abriu nos moldes das universidades tradicionais e arranjaram qualquer professor que tava por ali para substituir aqueles nomes incríveis, todos convidados pelo Darcy Ribeiro. Eram os artistas mais influentes, mais atuantes daquele momento, de todas as áreas. Música, filosofia, linguística, artes plásticas… A fotografia não estava prevista no primeiro momento. Eu tinha uma pequena bolsa de estudos na qual eu tinha que ajudar o professor a preparar a aula. Eu fui cair com um arquiteto, Luis Humberto Martins Pereira, que na época não era fotógrafo, mas já queria ser. A gente abriu umas caixas que estavam, uma doação que foi feita, eram ampliadores, novinhos. ‘Vamos tirar um, vamos instalar.’ Não havia nenhuma instalação para isso, a gente fechou um pequeno banheiro no Instituto de Artes e transformou esse banheiro numa câmara escura. A gente não sabia nada. Não sabia como ampliar a foto. Tinha um funcionário, já mais antigo da universidade, que fazia fotografias. Ele ganhava um extra no fim de semana fotografando casamento. Então ele sabia como revelar, como tirar a foto e ele nos ensinou a fazer as químicas e começamos a utilizar esse pequeno laboratório para fazer as nossas primeiras fotografias. Assim começou o meu interesse pela fotografia. Assim também começou a fotografia na Universidade de Brasília e o Luis Humberto se tornou um grande profissional depois. É um dos grandes nomes dentre os fotógrafos de Brasília. Talvez seja o nome mais expressivo da fotografia de Brasília.
[EE] Aproveito para perguntar sobre a materialidade da fotografia, porque, por exemplo, lá no departamento de comunicação da UFRN, o laboratório químico foi desmontado há uns anos e existe um movimento pequeno de tentar voltar a ter um laboratório experimental para que os alunos pelo menos vejam e conheçam os processos analógicos. Temos alunos que nunca viram uma película. Você acha que esse movimento de voltar para a materialidade — depois de 20 anos vivendo a fotografia digital de uma forma muito intensa — mesmo que mínimo, tem algum impacto na compreensão da fotografia ou no ensino da imagem? Você acha importante voltar a ter um pouco disso?
[JB] Eu acho sim. Eu acho muito importante. Qualquer um que vai estudar história, matemática, física, tem que estudar a história da história. Então, a fotografia viveu mais de 100 anos analógica e, como você falou, somente nos últimos 20 anos ela se tornou digital. Se alguém quer ter um conhecimento um pouco maior de fotografia, é fundamental que conheça o processo químico de fotografia, porque a fotografia viveu e nasceu dessa maneira. Quer dizer: se você quiser compreender a fotografia hoje, você tem que compreender e tem que ter conhecimento da história da fotografia. Estudar os grandes fotógrafos. Eu acho legal o interesse dos jovens, em querer conhecer o processo de fotografia química, porque é uma nostalgia do não vivido. Mas é uma grande aula de fotografia poder acompanhar o processo todo através de um laboratório até ampliar a foto. Como um aprendizado para aprofundar o conhecimento de fotografia é importantíssimo
[EE] Ao longo da sua trajetória, em muitos momentos, existe a fotografia feita pelo viajante e pelo fotógrafo, com sensibilidade em relação ao entorno, mas que também está suscetível aos pequenos acidentes (ou incidentes). Você até fala, sobre o filme Iracema, que ele surge também um pouco disso, dessa observação, de um fato inesperado, de um acidente?
[JB] Iracema surgiu a partir de uma matéria que eu estava fazendo para a Realidade, como fotógrafo. E isso foi seis anos antes de fazer o filme, nem sonhava em dirigir. Eu trabalhava como câmera para a televisão alemã, mas assim para mim, o cinema era fazer câmera. E aí, mais uma vez eu trabalhando para a revista Realidade, acompanhando um repórter na matéria sobre dinheiro falso em Paragominas, uma cidadezinha que fica bem no meio entre Belém e Brasília. Naquela época, final dos anos 1960, a rodovia Belém-Brasília (BR-010) era de terra como é a Transamazônica hoje. Era um faroeste ali. A gente foi para Belém, pegou um aviãozinho. Não tinha aeroporto em Paragominas, o avião pousava na própria estrada, que era comum. O repórter foi pesquisar a matéria e me deixou esperando no posto de gasolina. Aí eu fiquei um dia, dois dias lá, observando o que que estava acontecendo. E eu achei tão interessante que durante o dia era abastecimento, lanchonete, borracheiro, sei lá o que. E de noite os mesmos personagens, aquilo se transformava num grande bordel. As meninas eram trazidas de Belém e de lá eram distribuídas pelos choferes de caminhão. Eu falei: ‘Se um dia eu contar a história da estrada, vai ser através desses dois personagens, do chofer de caminhão e da menininha que se prostitui’. E foi assim que surgiu a ideia de Iracema. Uma coisa que fiz na época — só para acrescentar — é que eu carregava uma Super 8, como um caderno de notas. Era uma forma que eu gravava as minhas coisas, porque quando você tá trabalhando de cameraman, para fora, é um trabalho extremamente intenso, não sobra tempo para fazer uma coisa pra você. E com a Super 8 eu estava lá sempre registrando os momentos de folga. O meu trabalho todo tem três vertentes, mas que se complementam: a fotografia, o Super 8 e o cinema. Usei o Super 8 até o final dos anos 1970. E o Super 8 era mudo. Quando finalmente eu fui vender essa história para um produtor de TV alemã, nunca tinha feito um filme. Ele me disse: ‘Ah, legal. A ideia é muito boa, mas me traga uma coisa concreta para ver. Como é que a gente vai confiar numa pessoa que não tem experiência de direção?’ Aí eu falei: ‘Tudo bem’.
[EE] E o que aconteceu?
[JB] Quando eu voltei para São Paulo, saí com meu fusquinha e dois companheiros que acabaram sendo parceiros do filme, o Orlando Senna, que era um jornalista, e o Wolf Gauer, que era meu parceiro alemão, quando eu estava na Alemanha. A gente tinha uma produtora lá. Saímos no meu Fusquinha e fomos até a Transamazônica, via Marabá. O Wolf fotografando, o Orlando entrevistando as pessoas e eu com a minha Super 8. Eu peguei os filmezinhos que eu fiz com a Super 8, que eram oito ou nove rolos. Eu colei os rolos porque eu não editava o Super 8 porque é muito ruim de editar, você danifica muito o filme, você não tem como ver direitinho. Então, eu não editava, eu sempre guardava o material bruto como saía da câmera. Já filmava plano sequência, já filmava imaginando o produto final, sem precisar editar. Juntei esses rolinhos e mostrei pro produtor da TV alemã. E ele ficou fascinado com as imagens. Falou: ‘Olha, se você me garantir essas imagens, se você me garantir isso no filme, eu produzo o filme para você’. Essas imagens, esse Super 8 foi restaurado pelo Instituto Moreira Salles, foi digitalizado. Se você olhar ele hoje, o Iracema todo está contido nele. Eu me formei pela Universidade de Brasília, mesmo sendo um tempo muito curto, foi aí que eu conheci o Brasil. Eu fui influenciado por esses professores que estavam lá naquele momento e era um momento político muito interessante, apesar de violento. Então, o meu olhar social, meu olhar sobre a política, sobre as pessoas foi desenvolvido aí. Eu sempre fotografo a partir de pessoas, as pessoas me interessam. Eu gosto de contar e fazer com que as pessoas contem as suas histórias para mim. Então, era um olhar profundamente do Brasil. O tempo que eu fiquei na Alemanha, não tirou esse meu olhar. Meu olhar continua sendo um olhar observador, tanto faz o lugar que eu estou. Quer dizer, eu olho o lado social e o lado político das pessoas. Então, se você pegar meus trabalhos que eu fiz na Alemanha e os que eu fiz em Brasília, não diferem muito, só diferem o lugar, mas o olhar é o mesmo.

[EE] O que a fotografia é para você hoje, o que que ela representa para você, nesse seu momento atual, ainda ativo, ainda produzindo, ainda fotografando?
[JB] Eu me enxergo como um contador de histórias. Eu conto histórias. E a fotografia é o meio de contar essas histórias. Eu conto histórias também da imagem, através do som, das entrevistas, com ou sem som. Tanto faz, entende? Mas é que não é só a imagem, senão fica parecendo uma coisa estética. Eu gosto de dar voz às pessoas. Os meus personagens eu não crio, eles estão aí, apenas revelo eles.
[EE] Como sua relação familiar e a sua infância reverberam no seu trabalho?
[JB] Eu nasci no Brasil e meus pais se deram muito bem no Brasil! Adoraram, nem pensaram em voltar para a Europa. Viveram e faleceram aqui. Meu pai até teve nacionalidade brasileira. Era um entusiasta do Juscelino, foi para Brasília. A minha família por parte do meu pai era uma família anarquista. O meu avô era um escritor anarquista, músico bastante famoso e perseguido politicamente na Europa, morava em Berlim. Ele faleceu cedo, diabético, naquela época não tinha como curar. Quando ele faleceu, minha avó voltou para Viena, a família era de Viena e se estabeleceram novamente ali. Era uma família que na época se falava assim: “Judeus assimilados”, eles eram ateus, mas de origem judaica. Mas a religião não entrou em nenhum momento na minha vida. Então, a cultura nesse momento histórico dos anos 20 até a chegada do nazismo nos anos 30, era um momento cultural muito rico na Europa e meus pais estavam inseridos nesse contexto. Então, uma vez em casa, achei tão engraçado que a minha filha disse: ‘Eu vou sair dessa casa, é muito cultural’ (risos). Achava muito cultural a minha casa. Mas havia esse ambiente, onde as coisas eram muito discutidas e desafiadas. Então eu já tinha esse incentivo. Quando eu conheci o projeto da Universidade de Brasília, que foi também um pouco por acaso, eu fiquei tão encantado, que larguei tudo e fui para lá. ‘É isso que eu quero’. Entrei com tamanho entusiasmo que imaginava: ‘nunca mais vou sair daqui, esse é meu lugar’. Só que aí veio o golpe e as histórias mudaram. Mas a semente ficou. Tudo aquilo que eu vivi naquele momento vale vale até hoje para mim. Foi onde eu criei o meu olhar. Influenciado pelo Luis Humberto, Amélia Toledo, (Athos) Bulcão, grandes figuras que estavam lá naquele momento.
[EE] Essas são suas referências dessa época, se a gente trouxer para os dias atuais, você teria outras referências ou pessoas que estão no campo da imagem que você admira o trabalho?
[JB] Não gosto de falar nome, mas a geração do cinema mais nova, dos fotógrafos de São Paulo que eu conheço, Cristiano Mascaro, até (Iatã) Cannabrava… Mas tem toda uma geração um pouco mais velha que veio do Foto Cine Clube Bandeirantes, o Thomas Farkas, que eu conheci pessoalmente muito bem, porque as nossas avós dividiam a mesma casa, que era quase uma família. Então, eu participei dessa geração, apesar de não ser fotógrafo na época, eu convivia com essas pessoas. Os bem mais novos, eu não estou acompanhando tanto. Eu também assino a Zum, acompanho a revista, mas é tanta gente, é tanta loucura.

[EE] Você acha que o seu trabalho também foi influenciado por esse movimento do Foto Cine Clube de São Paulo?
[JB] Sim, com certeza. Porque a primeira vez que a fotografia entrou na Bienal de São Paulo, acho que foi 1965, tinha uma foto minha e foi organizada pelo Foto clube Bandeirantes. Eu não sei quem indicou, só sei que botaram algumas fotos minhas lá e eu no meio desse pessoal todo. Engraçado, né? Mas eu mais novo que eles, não frequentei o Foto Clube Bandeirantes, mas eram pessoas muito amigas minhas… Fernando Lemos, George Torok, enfim, todos os grandes nomes do Foto Clube Bandeirantes, eu conheço. Faziam parte do círculo dos artistas que a gente frequentava e acompanhava. Tinha o grupo que trabalhava na revista Realidade. O Walter Firmo, o George Love, a Cláudia Andujar, Maureen Bisilliat, eram todos como eu, freelancers. Apesar da gente não frequentar a redação, a gente se conhecia, um observava o trabalho do outro, era assim, um grupo muito seleto. Aqueles que trabalhavam para a Realidade era quase que uma confraria.
[EE] O que você diria para a nova geração, que está vindo neste contexto, de uma fotografia majoritariamente digital, com o uso de inteligência artificial. O que você diria para essa turma nova que está chegando?
[JB] Eu diria o seguinte: quem faz a fotografia é a sua cabeça, não é o equipamento. É o seu olhar. Tanto faz se você faz ele digital, analógico, com IA, o que for, entende? Mas é você que imprime o olhar. Então acho que essa de pensar que o equipamento altera aquilo que você quer contar, eu não concordo. Você tem de saber o que você quer dizer, não o equipamento. Eu acho que mesmo com essas facilidades técnicas — que são facilidades em termos, porque eu acho até mais complicadas do que na época da fotografia analógica — elas por si só não fazem nada. É você que impõe o seu olhar através desse equipamento. Então, se você não tem uma cultura de olhar, não adianta nada. Você pode botar quanto IA você quiser lá dentro, vai ser sempre uma foto sem expressão.
[EE] Quais são suas expectativas em relação ao reencontro em Sibaúma? É a primeira vez que você volta para encontrar com essas pessoas?
[JB] Eu acho o máximo. Eu estou curioso para ver, principalmente, o que eles vão dizer referente ao período das fotos. O que eles vão contar… Também é um prazer, porque é sempre muito bom quando a gente faz um trabalho desse retornar a sua origem. É tão difícil a gente quando trabalha profissionalmente, fazer o retorno. Às vezes, na maioria das vezes é impossível. Lugares longes, distantes, o tempo passa, as pessoas não são mais as mesmas. Então é uma chance muito rara de ter um retorno assim de uma matéria da Realidade, eu acho é uma raridade, é uma pérola. Vamos ver.
Confira abaixo a reprodução da reportagem de 1969, escrita por Talvani Guedes:
A exposição “Herdeiros de Zumbi, um álbum de família de Sibaúma por Jorge Bodanzky, 1969″ reúne retratos da comunidade quilombola em plena ditadura. Apenas 9 fotos de Jorge Bodanzky foram publicadas na revista Realidade, dando vida ao artigo “Os herdeiros de Zumbi” escrito pelo jornalista potiguar Talvani Guedes da Fonseca.
Além da sua importância para um novo jornalismo, o artigo se tornou um documento histórico, subsidiando a solicitação de titulação coletiva do território. Mais de meio século após a reportagem, as fotografias retornam à comunidade que lhe deu origem, num encontro inesperado com as famílias dos herdeiros.
As imagens, de grande valor estético, não envelheceram. São preciosas por documentar a organização social, as relações de parentesco, o cotidiano, as práticas produtivas, a ocupação do território, revelando as paisagens humanas e naturais de Sibaúma. Ilustram as continuidades e transformações vividas pelas famílias ao longo do tempo. São registros visuais que testemunham a presença histórica da comunidade em seu território e reafirmam a legitimidade das demandas por direitos. Mais do que uma exposição fotográfica, é um convite ao reencontro com a memória, à valorização da cultura e ao reconhecimento da contribuição dos quilombos para a formação da sociedade brasileira.
Sibaúma tem uma história marcada pela luta em defesa do seu território, do seu patrimônio cultural e da sua memória. Todos os herdeiros reconhecem Seu Eduardo Leandro como o antigo chefe de Sibaúma e insistem sobre o entrelaçamento dos três troncos familiares – os Leandro, os Camilo e os Caetano.
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Ao devolver essas imagens à Sibaúma e compartilhá-las com o público, a exposição reafirma o direito à memória, à identidade e à preservação do patrimônio cultural quilombola.
Foi realizada uma pesquisa coletiva por antropólogas e estudantes da UFRN entre os meses de abril e julho de 2026, com o objetivo de identificar as pessoas fotografadas em 1969, contando com a preciosa colaboração dos familiares.
A exposição integra as atividades do projeto de extensão Museu Virtual Tronco, Ramos e Raízes (UFRN), reafirmando o compromisso da universidade e das instituições parceiras com a salvaguarda, a difusão e a valorização dos saberes, histórias e patrimônios da Comunidade Quilombola de Sibaúma. É resultado de uma colaboração entre o Grupo de Pesquisa Cultura, Identidade e Representações Simbólicas (CIRS/UFRN), em parceria com a Associação de Remanescentes Quilombolas da Praia de Sibaúma e o Instituto Moreira Salles (IMS) que possibilitou a realização da exposição, com a cessão e a reprodução das fotografias.
Conta ainda com o apoio do município de Tibau do Sul, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

🎬 22 de julho
Iracema, uma Transa Amazônica
📍 Livraria Manimbu Arte e Cultura – Natal
🕖 19h
🎬 24 de julho
Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky
📍 A Fonte Bar – Praia de Pipa
🕖 19h
📸 25 de julho
Abertura da exposição Herdeiros de Zumbi – Um Álbum de Família de Sibaúma por Jorge Bodanzky, 1969
📍 Centro Cultural Herdeiros de Zumbi – Sibaúma, Tibau do Sul
🕓 16h
Fotografias: Jorge Bodanzky
Comunicação visual: Natália Amarante
Expografia e montagem: Louise Cavignac S. Sousa, Sebastião Albano
Produção, pesquisa e curadoria:
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