Das celas às passarelas: coleção criada por presos de Alcaçuz vira símbolo da ressocialização no RN - Fotos: Wendell Guilherme

Cotidiano

Recuperação Das celas às passarelas: coleção criada por presos de Alcaçuz vira símbolo da ressocialização no RN

Apresentada no GINGA Moda RN, a coleção desenvolvida por 15 internos da Penitenciária Estadual demonstra, na prática, como a qualificação profissional e o trabalho funcionam como ferramentas eficazes de reinserção social e combate à reincidência

por: Alessandra Bernardo

Publicado 10 de agosto de 2026 às 18:05

O debate sobre a ampliação de programas de trabalho e qualificação para reduzir a reincidência criminal ganhou um exemplo concreto no Rio Grande do Norte. Quinze internos da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, assinam a coleção Revoada, apresentada no GINGA Moda RN como resultado de um projeto de capacitação que levou às passarelas peças criadas e confeccionadas pelos próprios participantes.

O desfile aconteceu poucos dias depois da 2ª Reunião Extraordinária do Conselho Nacional de Secretários de Justiça, Cidadania, Direitos Humanos e Administração Penitenciária (Consej), realizada em Brasília.

No encontro, representantes do Tribunal Superior do Trabalho (TST), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do Ministério da Justiça, do Ministério Público do Trabalho (MPT) e das secretarias estaduais discutiram formas de ampliar programas de trabalho e qualificação para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, além de novas fontes de financiamento para essas políticas.

A iniciativa integra a estratégia nacional de ampliar oportunidades de educação, qualificação profissional e emprego para pessoas privadas de liberdade. Entre os temas debatidos esteve o programa Pena Justa Emprega, que busca expandir as oportunidades de capacitação e inserção no mercado de trabalho dentro e fora das unidades prisionais.

É justamente esse modelo que Alcaçuz já desenvolve no Rio Grande do Norte.

A coleção Revoada foi desenvolvida por 15 homens privados de liberdade durante o primeiro semestre deste ano, na oficina de costura instalada na Penitenciária Estadual de Alcaçuz. A iniciativa integra o projeto Tecendo Liberdades, realizado pelo SENAI-RN em parceria com a Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (Seap).

Os participantes acompanharam todas as etapas da produção, desde a pesquisa e o desenvolvimento do conceito até a modelagem, à costura e o acabamento de cerca de 25 peças apresentadas no desfile. O trabalho utilizou técnicas como crochê, macramê, bordado e fuxico, além de materiais reaproveitados da indústria têxtil, entre eles retalhos, linhas, botões e miçangas.

O reaproveitamento de materiais se tornou uma das marcas da coleção. Linhas de máquina foram reunidas para formar fios de crochê usados na confecção de um manto, enquanto um tear utilizado na produção de bolsas foi construído pelos próprios internos na oficina de marcenaria do presídio. Em alguns bonés, a aba foi produzida com pedaços reaproveitados de baldes de tinta da unidade prisional.

Das celas às passarelas: coleção criada por presos de Alcaçuz vira símbolo da ressocialização no RN – Fotos: Wendell Guilherme

Inspirada na obra A Conferência dos Pássaros, do poeta persa Farid ud-Din Attar, e no espetáculo Revoada, do Grupo Arkhétypos de Teatro, a coleção faz referência à liberdade, à identidade, ao pertencimento e à possibilidade de recomeço. As peças trazem palavras como “liberdade”, “desafios”, “ninguém é perfeito” e “recomeço”, refletindo a visão dos próprios participantes sobre novos caminhos para a vida.

Segundo a estilista Jéssica Cerejeira, responsável pela orientação do projeto, a proposta foi transformar em roupas e acessórios as reflexões desenvolvidas pelos internos ao longo do processo criativo. O desfile foi acompanhado pelos participantes de dentro da penitenciária, por transmissão ao vivo.

Qualificação e ressocialização

Os participantes da coleção já haviam concluído cursos de costura oferecidos pelo SENAI-RN em parceria com o Ministério Público do Trabalho. A iniciativa amplia a formação profissional dos internos e busca facilitar a inserção no mercado de trabalho após o cumprimento da pena.

De acordo com o SENAI-RN, mais de 1,3 mil pessoas privadas de liberdade já foram qualificadas em municípios potiguares nas áreas de confecção, construção civil e alimentos. O objetivo é ampliar as oportunidades de emprego e contribuir para reduzir os índices de reincidência criminal.

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Para o diretor regional do SENAI-RN, Rodrigo Mello, o projeto demonstra como a educação e trabalho podem contribuir para a recuperação de pessoas privadas de liberdade. Na avaliação do procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho no RN, Gleydson Gadelha, oferecer qualificação significa ampliar as possibilidades de geração de renda e de reinserção social, beneficiando não apenas os participantes, mas também suas famílias e a sociedade.

Além dos cursos de qualificação, AlcaçuCentro de produção

Alcaçuz mantém um centro de produção onde internos trabalham na fabricação de blocos de concreto, esquadrias de alumínio, móveis de marcenaria, artigos religiosos, fardamentos e peças têxteis. Segundo a Seap, até robôs já foram produzidos nas oficinas da unidade.

Para participar das atividades, os internos passam por avaliação técnica e psicossocial. Além da capacitação profissional, recebem um salário mínimo, com distribuição prevista em lei, e têm direito à remição da pena, reduzindo um dia da condenação a cada três dias trabalhados.

A experiência desenvolvida em Alcaçuz mostra que parte das iniciativas discutidas atualmente pelo governo federal e pelo sistema de Justiça já vem sendo colocada em prática no Rio Grande do Norte. A aposta é que trabalho, qualificação profissional e geração de renda contribuam para ampliar a ressocialização e reduzir a reincidência criminal.

Das celas às passarelas: coleção criada por presos de Alcaçuz vira símbolo da ressocialização no RN – Fotos: Wendell Guilherme

Alcaçuz em números

  • 15 internos criaram a coleção Revoada;
  • Cerca de 25 peças foram apresentadas no GINGA Moda RN;
  • Produção inclui técnicas de crochê, macramê, bordado e fuxico;
  • Mais de 1.300 pessoas privadas de liberdade já foram qualificadas pelo SENAI-RN em parceria com o MPT-RN;
  • Remição da pena: um dia a menos de condenação para cada três dias trabalhados;
  • O centro de produção de Alcaçuz fabrica blocos de concreto, móveis, esquadrias, artigos religiosos, fardamentos, peças têxteis e outros produtos.

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