Quanto maior a frequência de ingestão de itens como doces, refrigerantes e fast-food, maior é a prevalência de sofrimento bucal nessa faixa etária. Foto: Pexels

Quanto maior a frequência de ingestão de itens como doces, refrigerantes e fast-food, maior é a prevalência de sofrimento bucal nessa faixa etária. Foto: Pexels

Cotidiano

No Brasil Consumo frequente de ultraprocessados está associado a mais dor dentária em adolescentes

Adolescentes com alto consumo apresentaram uma prevalência de dor 27% maior para doces, 28% maior para refrigerantes e 22% maior para fast-food em relação àqueles com baixo consumo

por: Agência Einstein

Publicado 6 de julho de 2026 às 16:30

Adolescentes brasileiros que consomem ultraprocessados com maior frequência apresentam prevalência significativamente maior de dor dentária, segundo estudo das universidades Federal (UFPel) e Católica de Pelotas (UCPel) publicado na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde. O artigo mostra que quanto maior a frequência de ingestão de itens como doces, refrigerantes e fast-food, maior é a prevalência de sofrimento bucal nessa faixa etária. Além de sinalizar problemas de saúde bucal, a dor dentária pode impactar a qualidade de vida, o sono e o desempenho escolar dos jovens.

A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma análise das respostas a questionários da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019, focando em jovens de 13 a 17 anos. O levantamento reúne informações de aproximadamente 125 mil estudantes de escolas públicas e privadas em todo o território nacional. Quase todos os respondentes (98,4%) disseram ter consumido ao menos um alimento ultraprocessado nas 24 horas anteriores ao preenchimento do questionário, o que indica que esse padrão alimentar já está presente no dia a dia da maioria dos jovens brasileiros.

O consumo alimentar foi avaliado com base na classificação NOVA, que divide os alimentos pelo grau de processamento, categorizando a frequência de ingestão em níveis baixo (0 a 2 dias por semana), moderado (3 a 4 dias) ou alto (5 a 7 dias). Adolescentes com alto consumo de ultraprocessados apresentaram uma prevalência de dor 27% maior para doces, 28% maior para refrigerantes e 22% maior para fast-food em relação aos jovens que relataram baixo consumo desses produtos.

A análise regional demonstrou disparidades no território brasileiro. As regiões Norte e Sudeste registraram as maiores prevalências de dor dentária associadas ao consumo de ultraprocessados. Em contrapartida, a região Sul apresentou os menores percentuais. O estudo aponta que esses contrastes refletem desigualdades no acesso a alimentos in natura e na organização dos serviços de saúde em cada macrorregião.

Os dados também revelaram recortes sociais específicos. Adolescentes do sexo feminino, estudantes mais velhos e indivíduos cujas mães possuem menor escolaridade apresentaram maior prevalência do sintoma. A escolaridade materna foi utilizada como indicador socioeconômico, reforçando que a dor dentária atua como um marcador de iniquidades sociais, uma vez que famílias com menor renda tendem a consumir mais produtos industrializados.

O levantamento utilizou dados validados pelo IBGE e aplicou um delineamento amostral complexo para garantir a representatividade nacional. Embora a pesquisa utilize medidas autorreferidas sujeitas a vieses de memória, os resultados foram ajustados por variáveis sociodemográficas para conferir robustez aos achados. Os autores defendem a realização de estudos futuros com exames clínicos para aprofundar a compreensão das causas da dor dentária na adolescência.

A pesquisadora Nathalia Ribeiro Jorge da Silva Garcia, uma das autoras do trabalho, destaca que a associação entre ultraprocessados e dor dentária ocorreu em todas as regiões do Brasil. “Mesmo em regiões onde a frequência de consumo foi relativamente menor, como Norte e Nordeste, os adolescentes com alto consumo apresentaram algumas das maiores prevalências de dor dentária. Isso sugere que fatores contextuais, como desigualdades sociais e diferenças no acesso aos serviços de saúde, podem potencializar os efeitos negativos desse padrão alimentar”, comenta.

Os resultados do estudo reforçam a importância do desenvolvimento de pesquisas longitudinais futuras, que poderão contribuir para uma melhor compreensão das relações temporais e causais entre o consumo de ultraprocessados e a dor dentária. Além disso, o interesse dos pesquisadores também se volta para os fatores contextuais, buscando entender como o ambiente alimentar local e o acesso aos serviços odontológicos influenciam essa dinâmica em diferentes regiões.

Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de estratégias intersetoriais que integrem saúde, educação e segurança alimentar. “Quando quase todos os adolescentes de um país consomem alimentos ultraprocessados diariamente, estamos diante de uma questão que envolve o ambiente alimentar, a publicidade voltada ao público jovem, a disponibilidade dos alimentos e as desigualdades sociais”, afirma Garcia. Nesse cenário, o incentivo ao consumo de alimentos in natura e o fortalecimento da alimentação escolar podem contribuir para a melhoria de indicadores de saúde entre os adolescentes.

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