O avanço da tecnologia no campo tem mudado a forma como os alimentos são produzidos, monitorados e comercializados em todo o mundo. No centro dessa transformação estão as agtechs, que são startups e empresas de base tecnológica especializadas em desenvolver soluções para o agronegócio, utilizando ferramentas como inteligência artificial, internet das coisas (IoT), automação, biotecnologia e análise de dados para aumentar a produtividade, reduzir custos e tornar a produção mais sustentável.
No Rio Grande do Norte, esse movimento vem ganhando relevância à medida que o ecossistema de inovação estadual se consolida. Atualmente, um diagnóstico inédito sobre a inovação agropecuária potiguar está em construção por meio do Comitê Gestor Estadual para Inovação Agropecuária (CGEIA-RN), criado pelo Governo do Estado para coordenar e fortalecer ações voltadas ao desenvolvimento tecnológico do setor, a partir de um protocolo firmado com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
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O grupo reúne 26 instituições ligadas ao governo, à pesquisa, ao ensino, à extensão rural e ao setor produtivo. Entre elas está o Parque Tecnológico Metrópole Digital (Metrópole Parque), que contribui tecnicamente para a elaboração do Diagnóstico Estadual de Inovação (DEIN), documento que deverá orientar futuras políticas públicas, investimentos e programas voltados ao fortalecimento da inovação no campo.
A iniciativa surge em um momento de retomada do segmento de agtechs no estado. Dados do Radar Agtech Brasil mostram que o Rio Grande do Norte passou de nove empresas mapeadas em 2020/2021 para cinco em 2023, mas voltou a crescer nos anos seguintes, retornando ao patamar de nove agtechs registradas em 2025.
O cenário reflete a maturidade crescente do ecossistema local de inovação. Segundo o Sebrae Startups Report Nordeste 2025, o estado possui atualmente 605 startups, das quais 6,28% atuam diretamente no agronegócio. De acordo com Rodrigo Romão, diretor do Metrópole Parque, embora o setor não seja majoritário entre os empreendimentos inovadores potiguares, sua presença tem papel estratégico para uma economia fortemente ligada às atividades agropecuárias.
“O desafio central do Rio Grande do Norte passa pela ampliação dessa jornada de inovação, desde a ideação até a chegada ao mercado, fortalecendo programas de validação tecnológica e acelerando a adoção dessas soluções pelo setor produtivo. A retomada do número de agtechs é um sinal positivo, mas é essencial transformar esse crescimento em impacto econômico e tecnológico efetivo para o estado”, destaca Rodrigo Romão.
A construção do diagnóstico pelo comitê está na reta final e deverá subsidiar a definição de estratégias e ações voltadas ao fortalecimento da inovação agropecuária no estado. O trabalho é coordenado pela Divisão de Desenvolvimento Rural do Ministério da Agricultura no Rio Grande do Norte.
“A previsão é concluir a entrega do diagnóstico até o final de julho. A partir desse levantamento, iniciaremos a elaboração de um plano de ação, previsto para começar em agosto, com foco na articulação dos atores do ecossistema e na implementação de iniciativas capazes de fortalecer a inovação no agro potiguar”, explica Pollianna Torres dos Santos, consultora em Inovação Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa/CNPq).
Startups
O fortalecimento desse ecossistema já pode ser observado nas empresas vinculadas ao Metrópole Parque que desenvolvem soluções com aplicação direta ou indireta para o agronegócio.
Um dos destaques é a DNA GTx, empresa residente que recentemente anunciou a aquisição de participação majoritária na startup GROINN. A operação amplia a atuação da companhia na área de agrotecnologia e fortalece o desenvolvimento de soluções baseadas em inteligência artificial para monitoramento de solo, agricultura de precisão, produtividade agrícola e geração de dados ambientais, incluindo métricas relacionadas ao carbono e à sustentabilidade.
Também conectada ao Parque, como integrante do programa de incubação, está a AGROCLUSTER CO, empresa que atua na integração de cadeias agroalimentares entre América Latina e Europa. A companhia utiliza tecnologias como IoT, blockchain e inteligência artificial para garantir rastreabilidade, monitoramento em tempo real e maior eficiência logística na comercialização internacional de frutas, verduras, café e cacau.
Outra referência é a Proseed, empresa originada na Escola Agrícola de Jundiaí, em Macaíba. Especializada em software, automação e visão computacional, a startup desenvolve ferramentas capazes de transformar avaliações tradicionalmente subjetivas em métricas digitais padronizadas. Suas soluções são aplicadas em áreas como classificação de sementes e grãos, análise de mudas, silvicultura, solo, carcinicultura e rastreabilidade, além de incorporar agentes de inteligência artificial voltados à pesquisa e à tomada de decisão.
No campo da instrumentação e conectividade, a Nortronic desenvolve equipamentos eletrônicos para coleta remota de dados em áreas de difícil acesso. As tecnologias da empresa utilizam diferentes sistemas de comunicação, incluindo rádio VHF, IoT e satélites, possibilitando aplicações em monitoramento ambiental, pesquisa científica, rastreamento e telemetria, recursos que podem ser aplicados sob demanda para ampliar mercados e casos de uso.
Já no eixo da biotecnologia, a MicroCiclo Biotecnologia representa o potencial da ciência aplicada ao desenvolvimento sustentável. A empresa trabalha com consórcios de bactérias selecionadas para degradação de compostos oleosos e tratamento de resíduos e efluentes industriais. A tecnologia, originada da pesquisa científica e protegida por patente, contribui para processos produtivos mais eficientes e ambientalmente responsáveis, alinhando-se às demandas de sustentabilidade que também impactam o setor agropecuário.
Ecossistema em expansão
O avanço das agtechs potiguares ocorre em um ambiente cada vez mais estruturado. Além do Metrópole Parque, o estado conta com iniciativas como a incubadora IAGRAM e o Parque Científico e Tecnológico do Semiárido, em Mossoró, além de comunidades de inovação como Startup RN, Jerimum Valley e Potiguaras Valley, fortalecendo a interiorização da inovação e a conexão entre academia, mercado e setor produtivo.
Esse ambiente também vem sendo ampliado com a consolidação do Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX | RN), em Macaíba, que atua como um espaço voltado à pesquisa aplicada, transferência de tecnologia e atração de empreendimentos inovadores.
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