Bicuda aparece como principal peixe relacionado aos casos no RN
O peixe chega à mesa com aparência normal, cheiro e sabor que não levantam suspeitas. O problema é que, nos casos de ciguatera, esses sinais não revelam se o alimento está contaminado. A toxina causadora da intoxicação não pode ser identificada pelo consumidor e continua ativa mesmo após processos como cozimento, congelamento ou salga.
O alerta aumentou no Rio Grande do Norte diante do crescimento das notificações da doença. Dados da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) mostram que o número de registros no primeiro semestre de 2026 já supera o total de notificações de todo o ano passado. Até 11 de junho deste ano, o estado registrou 141 casos de ciguatera. Em 2025, foram 88 notificações em todo o ano. A comparação representa aumento de 60,2% nos registros.
No último dia 20 de julho, a Sesap instituiu comitê de acompanhamento para monitorar os casos de intoxicação por ciguatera e definir ações de enfrentamento à doença. O grupo acompanhar a evolução dos casos e coordenar as ações de saúde.
O secretário estadual de Saúde Pública, Alexandre Motta, alertou para a circulação de informações falsas sobre a doença e reforçou que a recomendação dos órgãos públicos é não interromper o consumo de pescado. “Algumas espécies de peixe incorporam essa toxina, não se sabe ainda exatamente por quê. Isso tem acontecido muito no RN e também na região de Fernando de Noronha, em Pernambuco”, afirmou.
Segundo ele, a intoxicação pode apresentar quadros graves em algumas pessoas, com sintomas específicos. “Isso leva a alguns casos, em algumas pessoas, a uma forma grave de intoxicação, com um quadro clínico bem específico”, explicou.
O secretário disse também que a orientação elaborada pela Sesap, pelo Governo do Estado, pela Secretaria de Agricultura e Pesca e por pesquisadores de universidades é evitar determinadas espécies relacionadas aos casos registrados “A recomendação é não consumir arabaiana, bicuda (também conhecida como barracuda), cioba, dourado, galo do alto, pargo preto, pescada branca, robalo, sirigado e badejo”, disse.
Alexandre destacou, porém, que a orientação não representa uma proibição geral ao consumo de pescado. “Todos os demais frutos do mar e os demais peixes podem ser consumidos. É importante lembrar que essa é uma cadeia produtiva que tem importância para as pessoas, para os pescadores e para quem vende pescado, e que precisa ser mantida”.
A ciguatera é uma intoxicação alimentar causada pelo consumo de peixes que acumulam uma neurotoxina produzida por microalgas marinhas ao longo da cadeia alimentar. A contaminação costuma ocorrer em espécies predadoras, que concentram a substância durante a vida.
Segundo a Sesap, a maior parte dos registros no estado ocorreu após o consumo de pescado preparado em casa. O levantamento aponta que 64% das intoxicações aconteceram depois de refeições feitas no ambiente doméstico, enquanto 36% estiveram relacionadas ao consumo em restaurantes ou outros estabelecimentos comerciais.
Os registros contrariam a percepção de que o risco estaria concentrado apenas em alimentos preparados fora de casa. A origem do pescado e os cuidados no momento da compra são fatores considerados importantes para reduzir a possibilidade de intoxicação.
Entre as espécies monitoradas pela Sesap, a bicuda — também conhecida como barracuda — aparece como o peixe mais relacionado aos casos confirmados no estado. Segundo os dados da secretaria, ela representa 45,13% das ocorrências. Também aparecem entre os peixes relacionados à ciguatera espécies como arabaiana, dourado, cioba, pescada branca, galo do alto, pargo e sirigado.
A orientação dos órgãos de saúde é evitar essas espécies quando não houver segurança sobre a origem do pescado ou sobre o local onde ele foi capturado. A Sesap também recomenda retirar partes como cabeça, vísceras e ovos dos peixes, onde pode ocorrer maior concentração da toxina.
Casos se espalham pelo RN e Natal concentra maioria das notificações Desde 2022, o RN registrou 259 notificações de ciguatera em 46 surtos. Desse total, 113 ocorrências foram confirmadas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Dois óbitos foram registrados no período. Natal concentra a maior parte das notificações estaduais, com 52,21% dos registros. Depois aparecem os municípios de Touros, Ceará-Mirim, Nísia Floresta, Parnamirim e Extremoz.
Entre os pacientes registrados, as mulheres representam 59,3% dos casos. A faixa etária mais atingida é formada por adultos entre 20 e 59 anos, responsável por 61,95% das ocorrências.
Como o peixe contaminado não apresenta alterações perceptíveis, o consumo pode ocorrer sem que a pessoa perceba.Os sintomas da ciguatera podem aparecer poucos minutos após a ingestão ou somente até 48 horas depois.
Os primeiros sinais costumam envolver o sistema digestivo, com náuseas, vômitos, diarreia e dores abdominais. Também podem surgir alterações neurológicas, como coceira intensa, dormência na boca, língua, mãos e pés, fraqueza, tontura e dores no corpo.
Um dos sintomas mais característicos é a chamada inversão térmica, quando a pessoa passa a perceber temperaturas de forma alterada, sentindo frio ao tocar algo quente ou calor ao tocar algo frio. Nos casos mais graves, a intoxicação pode provocar alterações cardiovasculares, como queda da pressão arterial e redução dos batimentos cardíacos.
A orientação da Sesap é que pessoas que apresentarem sintomas após consumir peixe procurem atendimento médico e informem qual pescado foi ingerido. Também é recomendado guardar possíveis sobras do alimento, devidamente acondicionadas e congeladas, para análise da Vigilância Sanitária.
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