Bets já movimentam mais recursos que o Bolsa Família no orçamento das famílias, aponta estudo - Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Pesquisa do Comsefaz e do Centro Internacional Celso Furtado estima que perdas líquidas com apostas online chegaram a R$ 62,5 bilhões em 2025 e passaram a consumir 0,68% da renda nacional das famílias
Publicado 27 de julho de 2026 às 15:03
As apostas esportivas online já ocupam cada vez o orçamento das famílias brasileiras. Estudo apresentado na semana passada pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado (Cicef), aponta que o Bolsa Família, um dos maiores programas de transferência de renda do país, representa cerca de 0,5% do PIB. Em contrapartida, o valor que as famílias perdem efetivamente para as bets — já descontados os prêmios recebidos — alcançou R$ 62,5 bilhões em 2025, equivalente a 0,68% da renda nacional disponível.
Segundo os pesquisadores, a expansão do mercado regulamentado de apostas esportivas alterou o comportamento financeiro das famílias e passou a influenciar indicadores de consumo no país. O estudo indica que, em 2025, o volume de recursos movimentados para empresas do setor alcançou cerca de R$ 80 bilhões. Desse total, a transferência líquida das famílias para as empresas de apostas foi estimada em R$ 62,5 bilhões. A diferença decorre dos prêmios pagos aos apostadores, mas, na prática, representa recursos que deixaram de circular na economia por meio do consumo tradicional de bens e serviços.
Para o presidente do Cicef, Carlos Pinkusfeld Bastos, o impacto das apostas sobre o orçamento das famílias já tem dimensão relevante. Segundo ele, o comprometimento da renda com as bets não pode ser considerado residual, sobretudo quando comparado a programas de transferência de renda.
O pesquisador Bruno Pereira afirmou que houve uma mudança significativa a partir de janeiro de 2025, quando entrou em vigor a regulamentação do mercado de apostas online. Desde então, as transferências realizadas por Pix por pessoas físicas para empresas classificadas no setor de arte, cultura, esportes e recreação registraram forte aceleração.
De acordo com o levantamento, o volume mensal dessas operações passou de aproximadamente R$ 5 bilhões para mais de R$ 25 bilhões em poucos meses, atingindo um pico próximo de R$ 42 bilhões em meados de 2025. A estimativa dos pesquisadores é que, entre outubro de 2024 e março de 2026, o volume médio mensal associado às apostas tenha sido de aproximadamente R$ 24 bilhões, totalizando cerca de R$ 350 bilhões em 2025.
O estudo destaca que a regulamentação proibiu o uso de cartões de crédito para apostas, autorizando apenas pagamentos por Pix. Na avaliação dos pesquisadores, a medida faz com que os desembolsos ocorram diretamente com recursos disponíveis nas contas bancárias, impactando imediatamente o orçamento das famílias.
Os pesquisadores também relacionam o crescimento das apostas à desaceleração do consumo das famílias. Embora o mercado de trabalho permaneça aquecido e a massa salarial continue em expansão, parte da renda passou a ser destinada às apostas, reduzindo os recursos disponíveis para o consumo de outros bens e serviços. Somado ao peso do pagamento de juros pelas famílias, esse efeito representa cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em recursos que deixam de circular na economia de consumo.
O levantamento também aponta maior participação de famílias de baixa renda no mercado de apostas. Um dos indícios observados foi a redução das transferências para o setor em outubro de 2024, após o governo federal proibir o uso de recursos do Bolsa Família em plataformas de apostas online. Para os pesquisadores, o comportamento reforça a presença significativa de beneficiários de programas sociais entre os apostadores.
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